Há já algum tempo fui alertado, por um dos meus leitores, para um acontecimento considerado insólito, direi mesmo chocante, face à denúncia que fiz oportunamente acerca dos numerosos erros que constatei num Documento de Trabalho apresentado publicamente por um vice-Presidente da A. T. Kearney (empresa de consultoria contratada pela MOPTC).
O espanto do meu leitor, escandalizado, baseava-se em ter lido nos jornais um anúncio relativo ao “Fórum de Mobilidade. Novos desafios”, realizado em fins de Novembro passado, e no qual participaram, entre outros, o Ministro e a Secretária de Estado dos Transportes (com a publicação das respectivas fotografias nesse anúncio); encontro este tendo como orador na Secção de Competitividade e Inovação o citado vice-Presidente – esse mesmo – que eu desancara copiosamente num trabalho publicado neste site em 3 de Abril p.pº, intitulado “Alguns erros grosseiros quando da apresentação da AV”.
Esclareço, ainda, que a síntese das intervenções nesse Fórum competiu ao “Managing Director” da referida empresa de consultoria. Decididamente, o MOPTC anda muito distraído e, parece, pouco zeloso na aplicação dos nossos dinheiros.
Declaro, com muita mágoa, que pouco mais posso fazer para repor a verdade, uma vez que todas as pessoas são livres – incluindo os políticos – para dizerem as asneiras que entenderem e, também, para escolherem os seus consultores, assessores e quejandos sujeitando-se, contudo, às críticas relativas aos seus actos. O que sempre fiz.
Concluí que os números apresentados não eram, afinal, uma base para reflexão técnica, antes podendo dar azo a uma vulgar manipulação política. Recordo que no meu trabalho acima referido citei nada menos que 17 erros (e muitas omissões), não me limitando a apontá-los, mas dando a conhecer os números correctos, baseado em fontes indiscutíveis. Até à data nunca fui contestado e desafio, mais uma vez, quem possa pôr em dúvida esses números ou, ainda, quem pretenda afirmar que se trata de uma difamação; para isso, lembro eu, há sempre o recurso aos tribunais para que se possa confirmar, ou não, essa asserção.
Conforme então escrevi, julgo que tantos erros não podem ser obra do acaso, outros sim o resultado de muita ignorância mesclada com uma boa dose de descaramento. É preciso não esquecer que o assunto em discussão é de suma importância para o nosso país e, nessa sessão de apresentação das linhas de AV, estavam presentes os seus mais altos responsáveis (incluindo, evidentemente, os do MOPTC).
Saliento, ainda, que o custo da inscrição permitindo participar nesse “Fórum” era de €950,00 + IVA o que condicionou, certamente, a democraticidade desse evento e, quem sabe, poderá explicar o estranho silêncio crítico de muitos dos presentes: os mais importantes empresários e gestores, assim como os altos quadros da função pública.
Com o devido respeito, direi que os responsáveis do MOPTC – ao evitarem corrigir estes erros – deram a ideia de olhar intencionalmente para o lado ou, então, encontram-se demasiado comprometidos com determinadas soluções propostas. Contudo, estes números (corrigidos) são muito importantes – indispensáveis – para se definir uma estratégia credível no plano ferroviário, para o nosso país.
Como cidadão sinto-me humilhado com o escandaloso compadrio (para não escrever cumplicidade) manifestado por este Ministério. Mais particularmente, como técnico, lamento a cobertura dada pela actual SET, também ela engenheira de formação e com responsabilidades docentes numa Escola prestigiada onde, presumo, procura inculcar nos seus discípulos as melhores qualidades de exactidão, rigor, isenção e transparência.
É um imperativo de consciência informar com veracidade – neste caso estão em causa os números apresentados pela A. T. Kearney – os eventuais interessados, isto é, todos os portugueses. Pena é que no MOPTC não haja essa preocupação e nem sequer tenham a hombridade de enfrentar (desmentindo, caso fosse possível) os dados por mim apresentados ou, então aceitá-los, reconhecendo os erros com modéstia, senão com humildade. Deste modo, colocaram-se na triste posição de meros figurantes perante uma influente multinacional – aliás com boas provas dadas noutras matérias – a A. T. Kearney. É triste e é vergonhoso.
2 - Apesar de muitas chamadas de atenção, procurando alertar para os inconvenientes de alguns traçados divulgados pelo Ministério a conta-gotas, o facto é que os seus responsáveis nunca se dignaram estudar as alternativas propostas, ensimesmados num autismo perigoso, surdo a todos os argumentos e solicitações. Esquecendo que as infra-estruturas são um meio e não um fim, em si mesmas: um meio para o desenvolvimento económico do país permitindo não exclusivamente uma melhoria da competitividade mas, também, a distribuição da riqueza de forma mais adequada diminuindo, assim, o desemprego.
Na verdade, o sistema de transportes é determinante como escolha das reformas estruturais, dado o seu peso na fixação dos preços dos produtos importados e exportados. Sem isso, ficaremos cada vez mais dependentes da vizinha Espanha, o mercado mais próximo que pode impor-se, não só em termos de trocas comerciais como, também, poderá condicionar as nossas exportações com medidas restritivas inatacáveis, face ao nosso atraso: problemas ambientais, outros relativos à interoperabilidade nos caminhos‑de‑ferro, nomeadamente os que dizem respeito à mudança de bitola, etc., etc.
Aliás, as reformas estruturais de que necessitamos não se ficam por aqui. Entre algumas boas escolhas, muitas delas dependem mais ou menos dos transportes, como sucede no campo energético, nas telecomunicações e no turismo. Não esquecendo, também, que uma política de desenvolvimento implica, sem dúvida alguma, uma melhoria do aparelho do Estado, ou seja, uma aposta permanente na inovação e valorização dos recursos humanos.
As sucessivas mudanças de orientação do MOPTC são o exemplo acabado do estado a que chegou este Ministério, hoje sem grande credibilidade, lançando sucessivas operações de “marketing” baseadas em estimativas pouco seguras, improváveis e não justificadas minimamente. Apresentando como projectos válidos estudos muito simples que nem sequer poderão ser considerados ante-projectos.
Infelizmente, há sempre quem esteja na disposição de “encontrar” números para todos os gostos, capazes de justificarem… o injustificado. Muitos têm dúvidas, mas o Ministério só tem certezas.
Tudo isto para nos tentar convencer da sustentabilidade económica e possibilidades de financiamento desses pseudo-projectos que se limitam, caso venham a concretizar-se, a gastar (mal) muitos milhões de euros para que alguns privilegiados possam ter o gozo de viajar no impropriamente denominado TGV. Enquanto o respeitável “povão” ficará a ver passar os comboios (demasiado caros para a sua bolsa) e a chuchar no dedo.
Procuram fugir por todos os meios ao debate completo, generalizado – mas indispensável para a formação de um consenso nacional – face à enormidade dos gastos previstos só para as duas linhas de AV. Aliás, muito superiores aos da tão discutida Ota (cerca de 2 a 3 vezes mais), o que parece ter sido esquecido por muitos economistas.
O MOPTC ao copiar, sem discernimento, o modelo adoptado por alguns países europeus mais desenvolvidos, ambiciona algo que está muito acima das nossas modestas possibilidades, dado o nosso baixo nível de vida.
O debate que preconizo terá, entre outras, a vantagem de obrigar os responsáveis a assumirem sem ambiguidades as respectivas posições, de modo a que as actuais gerações (e as seguintes) possam apontar o dedo, rigorosamente e sem hesitações, os que pretendem envolver o país nesta aventura. Numa época de crise estrutural instalada, em que já não é possível contar com as especiarias de outrora, o ouro, a prata, o café e,para cúmulo os subsídios da UE têm os dias contados, diminuindo a olhos vistos.
Será esta mais uma oportunidade perdida?
E não venham dizer que os números aceites passivamente pelo MOPTC não têm qualquer importância; tem e muita, na medida em que com eles se procura justificar – ou não – a AV, a VE ou, então, a opção pelas linhas convencionais cujos custos de primeiro estabelecimento variam substancialmente com essa escolha, assim como as despesas de exploração, conservação e manutenção.
Será que a reprodutibilidade da larga soma de recursos indispensáveis está assegurada em qualquer das hipóteses que enumerei, para as novas linhas de caminhos‑de‑ferro? E se as estimativas (pouco ou nada credíveis, conforme tenho vindo a escrever), forem ultrapassados em muito, como penso? Continuarão a ser rentáveis, como dizem?
Será possível que o nosso país possa sobreviver a escolhas tão mal feitas, geradoras de pesadas despesas a juntar a tantas outras (lembro os encargos com o viaduto Vasco da Gama, as SCUTS e a colecção de estádios meio vazios do Euro 2004), só para falar das mais comentadas? Só as SCUTS (portagens sem custo para os utilizadores) ascendem a 705,4 milhões de euros por ano, incluindo neste valor as rendas a pagar aos concessionários e as eventuais compensações, a título de reequilíbrio financeiro. E, note-se, contrariamente ao que se sugere com este jogo de palavras, há custos, sim, mas para todos nós.
Será que é possível esquecer as muitas centenas de pontes rodo e ferroviárias arriscando o colapso por falta de verbas ou, então, “por causas naturais” na linguagem pitoresca de alguém que irá ficar para a (pequena) história? E, ainda, os muitos milhares de quilómetros de estradas e auto-estradas necessitando uma conservação sistemática, sem a qual os custos de manutenção irão subir vertiginosamente, podendo duplicar? E o que fazer com a vetusta rede ferroviária que ainda temos? O remédio, pelos vistos, é a sua morte anunciada com o fecho de mais e mais quilómetros de via enquanto que, em muitos outros países, já se adoptou a sábia política de investir nos caminhos-de-ferro para fazer face aos crescentes custos energéticos e ambientais.
Custos estes a pesarem durante anos e anos, coarctando novos investimentos e agravando o nosso défice orçamental. Demais, sabendo-se que as estimativas oficiais das grandes obras a considerar num futuro próximo – a Ota, os caminhos-de-ferro de AV, o viaduto Chelas-Barreiro (desnecessário, para o efeito), os 95 quilómetros de linhas ferroviárias exclusivamente para mercadorias entre Évora e Caia (um disparate) e, mais ainda, os 45 km de túneis e viadutos ligando a Ota com Lisboa (uma loucura, pois há alternativas) – estão todas elas subavaliadas por técnicos desejosos de agradar a quem lhes encomenda os trabalhos.
Muito embora, convenho, possam contar com o apoio entusiástico da Banca e dos grandes empreiteiros de obras públicas os quais, certamente, saberão escorar-se devidamente.
Fácil é de demonstrar que a culpa não é exclusivamente dos governos anteriores, isto com o argumento do falacioso baseado em que os traçados já estavam escolhidos. Isso não é verdade e, a prova, é que se mudou várias vezes de orientação e prioridades, desde o T deitado ao Pi, com opções de velocidades para todos os gostos. Além do que, nas Cimeiras fixaram-se directrizes e não os seus traçados, estes, da nossa inteira responsabilidade em território nacional (dizer o contrário revela pura ignorância).
Com efeito, os projectos prioritários são presentes à Comissão Europeia a partir de propostas provenientes de cada um dos Estados membros; nesta ordem de ideias, Bruxelas não nos pressionou, antes pelo contrário. Tanto mais que, o delegado português com direito de voto, é o Director do Gabinete para os Assuntos Europeus e Relações Exteriores – GAERE e, nada obsta que os projectos sejam revistos ou alterados – o que está previsto nas normas escritas – desde que haja razões válidas que possam ser aceites.
Que credibilidade oferecem, nestas circunstâncias, os misteriosos (porque são secretos, desconhecidos) estudos obrigatórios de avaliação custos-benefícios? Quando muito restará, à posteriori, a lembrança dos responsáveis, esses sim, mas pelas piores razões. Havendo outras opções, concretamente indicadas, porque não as estudam?
Temos, de facto, um dos maiores défices externos do Mundo, em termos relativos: num período acumulado de 7 anos, dizem, o quinto maior défice. Por outro lado, crescemos a níveis muito inferiores a 2% (taxas médias) e, durante anos, disparou a despesa pública o que é um erro crasso em termos de macroeconomia. Acrescente-se, a tudo isto, o envelhecimento da população que arrasta consigo o aumento das despesas com as pensões de reforma e os cuidados de saúde, responsabilidades estas a que o Estado não pode – nem deve – escusar-se.
Prosseguindo neste caminho os gastos do Estado, insensatos na medida em que são mal escolhidos, irão agravar ainda mais a nossa (triste) posição de crise financeira quase crónica, empurrando para as gerações vindouras o ónus de um esforço cada vez maior.
É preciso dizer com voz clara e firme que o investimento público em obras públicas (mesmo quando mal escolhidas) podem aumentar, momentaneamente, o valor do PIB; pode porém, pouco tempo depois, terá consequências nefastas para a economia e para o desemprego. O crescimento nem sempre é a variável mais importante para puxar, arrastando, todas as outras.
Uma coisa parece-nos certa: o apoio financeiro indispensável ou, mais concretamente, o recurso à Banca irá ficar muito agravado em consequência do nosso défice externo (estamos classificados em AA-) e as perspectivas do futuro, o que significa que teremos de pagar os juros com língua de palmo. O mecenato, como é sabido, não entra na área dos negócios.
No MOPTC, hoje, há mais cultura livresca do que conhecimentos técnicos, pelo menos no que se refere aos caminhos-de-ferro. A experiência acumulada de muitos e bons engenheiros – na CP, e na RAVE/REFER – é cada vez mais fraca pelo facto de se recorrer, a propósito de tudo e de nada, ao “outsourcing” que só deveria ser encarado numa situação de escassez de meios ou de competências internas; e ele, como é evidente, apresenta sempre soluções que sabe serem do agrado de quem encomenda os trabalhos.
Daí resulta que faltam medidas de fundo, bem pensadas e amadurecidas por equipas multidisciplinares, sobrando as de cosmética. Não há tempo para ponderar e age-se mais para a fama dos dirigentes do momento e para as sondagens e, por isso mesmo, cada vez menos com as sondagens como eventual elemento corrector.
Parece-nos, pois, de inegável interesse relembrar algumas noções elementares – mas, sem dúvida, fundamentais – relativas aos caminhos-de-ferro, considerados estes não como um jogo virtual, mas sim como uma realidade vivida.
3 - Velocidades comerciais face às velocidades máximas praticadas (alguns exemplos):
a) França – LGV permitindo a velocidade máxima de 300 km/h
TGV Paris/Marseille (750 km)
Directo 180 m; velocidade comercial de 250 km/h
1 paragem intermédia 190 m; velocidade comercial de 236,8 km/h
2 paragens intermédias 196 m; velocidade comercial de 229,5 km/h
TGV
Paris-Montparnasse/St. Pierre-des-Corps (221 km)
Directo 56 m; velocidade comercial de 237 km/h
1 paragem intermédia 63 m; velocidade comercial de 210,5 km/h
- linha clássica (convencional) adaptada, permitindo a v. máxima 200 km/h
TGV Poitiers/Bordeaux (249 km)
Directo 98 m; velocidade comercial de 152,4 km/h
1 paragem intermédia 103 m; velocidade comercial de 145 km/h
2 paragens intermédias 114 m; velocidade comercial de 131 km/h
b) Espanha – LGV permitindo a velocidade máxima de 300 km/h, com excepção da linha Madrid/Lleida onde não é permitido ultrapassar os 200 km/h por razões que tenho exposto em trabalhos anteriores.
Madrid/Sevilha (471 km)
Directo 140 m; velocidade comercial de 201,8 km/h
1 paragem intermédia 150 m; velocidade comercial de 188,4 km/h
Madrid/Lleida (447 km): esta linha foi estudada com parâmetros permitindo a velocidade máxima de 350 km/h
1 paragem intermédia 165 m; velocidade comercial de 162,5 km/h
c) Alemanha – LGV onde circulam os ICE com velocidades máximas entre os 250 e os 300 km/h
Mannheim/Stuttgart (129 km)
Directo 38 m; velocidade comercial de 203,6 km/h
1 paragem intermédia 52 m; velocidade comercial de 148,8 km/h
2 paragens intermédias 57 m; velocidade comercial de 135,7 km/h
d) Itália – LGV onde circulam os ES (ETR 450/460/500)
Florença/Roma (316 km)
Directo 96 m; velocidade comercial de 197,5 km/h
1 paragem intermédia 122 m; velocidade comercial de 155,4 km/h
Notas – (1) Madrid/Lleida foi construída; apressadamente, há já alguns anos e, conforme escrevi, com parâmetros admitindo os 350 km/h; contudo, até á data, ainda não foi possível aproveitá-la em todas as suas potencialidades, longe disso (a velocidade máxima admitida é de 200 km/h), conforme expliquei em trabalhos anteriores. Seria bom que este traçado pudesse ser "um caso de estudo", mais especialmente para alguns responsáveis portugueses, ávidos de protagonismo, mas ignorantes. Nesta linha corre, actualmente, o AVE série 102 que, no futuro, poderá atingir os 300 km/h de velocidade máxima graças a melhorias no sistema de sinalização e, claro está, a uma condução automática.
(2) O TGV (Thalys) percorre, actualmente, Paris/Amsterdam (540 km) em 4 h 10 m, portanto, a uma velocidade comercial de 129,6 km/h; e Paris/Colónia (544 km) em 3 h 50 m, a uma velocidade comercial de 141,9 km/h. Velocidades estas relativamente baixas motivadas por linhas clássicas, melhoradas, mas muito sobrecarregadas com tráfego de toda a espécie. Com a nova linha LGV, em construção, prevista operacional em 2009 haverá, nestes percursos, ganhos de tempo até uma hora; o que significa que a velocidade comercial aumentará, respectivamente, para 170,5 km/h e 192 km/h, velocidades estas que para alguns "furiosos" que conheço seriam, simplesmente, vergonhosas. Desnecessário será dizer que são percursos que servem algumas das mais ricas regiões da Europa.
Aos exemplos atrás citados poderemos, também, juntar muitos outros que tenho vindo a divulgar ao longo dos meus trabalhos, o que me permite concluir:
§ Nas linhas de AV (as LGV), as velocidades comerciais não ultrapassam, na prática, os 250 km/h o que sucede, aliás, num só caso com o TGV Paris/Marseille.
§ Nas linhas clássicas, melhoradas, o máximo atinge os 200 km/h e as velocidades comerciais baixam substancialmente, como adiante se verá.
- 0 TGV Paris/Bordeaux percorre a linha LGV a 237 km/h; porém, após St. Pierre-des-Corps, a velocidade comercial desce para os 152,4 km/h, nas linhas clássicas melhoradas;
- o mesmo sucede noutros países, nomeadamente em Espanha, Alemanha e Itália, de um modo geral com velocidades comerciais ainda mais baixas.
Salvo melhor opinião, parece-nos haver uma forte dose de ignorância, no nosso país, relativamente aos problemas de tracção, entre outros. Refiro-me, evidentemente, aos decisores. Assim:
§ Quando os responsáveis do MOPTC euforicamente, apontam para tempos de percurso da ordem dos 75 m no novo trajecto Lisboa/Porto, direi que estão a colocar a fasquia muito alta, dado que o trajecto previsto é de 313 km; em minha opinião, demasiado longo visto tratar-se de uma linha de AV (penso que não deveria ultrapassar os 295 km de extensão). Infelizmente, este ministério preocupa-se demasiado com a velocidade e não suficientemente com os traçados que irão condicionar a exploração da linha durante muitas e muitas dezenas de anos.
Concluímos
que a velocidade comercial prevista pela RAVE/REFER para este percurso, será de
250,4 km/h. Se baixarmos o número de quilómetros a percorrer para os 295 que
indiquei, e mantendo-se a mesma duração para este percurso (75 m), a
velocidade média baixa para os 236
km/h – mais económica na exploração – aliás, mesmo assim, superior
à praticada em muitos outros países da Europa.
§ Chama-se a atenção, ainda, para alguns erros técnicos que importa corrigir.
Com efeito, é do conhecimento geral que a velocidade comercial é sempre muito mais baixa do que a velocidade máxima permitida numa determinada linha (confirme-se com a leitura do nº 3 deste texto), isto por muitas razões, entre outras a existência de obras da arte – nomeadamente túneis e viadutos – e, também, pela localização das estações terminais e das intermédias ao longo de todo o percurso; nas primeiras, por razões de segurança e de conforto, há fortes limitações de velocidade e, nas restantes, devido à existência de linhas de desvio, de cruzamento, etc., implicando a colocação dos chamados aparelhos de via que obrigam ao abrandamento da marcha, o que não se faz instantaneamente, como é óbvio.
Por outro lado, as velocidades máximas deverão abrandar nas curvas do traçado (horizontais e no plano vertical), também pelas mesmas razões; nos túneis e viadutos, não deverão ultrapassar os 120-160 km/h. No túnel da Mancha, salvo erro com o diâmetro excepcional da 8,60 m, a velocidade máxima permitida é de 160 km/h e, na ponte 25 de Abril, ela é inferior aos 60 km/h (por vezes, a acção dos ventos obriga a fortes restrições).
Nesta ordem de ideias, vejamos o que poderá suceder na nova linha de AV entre Lisboa e o Porto 313 km):
§ Considerando a velocidade média comercial de 250 km/h no troço Porto/Ota – 268 km; o tempo gasto neste percurso, na melhor das hipóteses e sem paragens, será de 64 m e 32 s;
§ Os restantes 45 km de túneis e viadutos, da Ota até Lisboa, poderão ser percorridos a uma velocidade média comercial de 130 km/h o que significa, repito, na melhor das hipóteses, mais 21 m e 6 s de trajecto. Tudo isto soma um total de, aproximadamente, 86 minutos; ou seja, mais 11 minutos do que o tempo (mal) estimado pelo MOPTC: 75 minutos.
Face as estes números, talvez que os responsáveis, agora, compreendam que a solução proposta abrangendo um percurso muito difícil (exclusivamente destinado a passageiros), recheado de túneis e viadutos além de ser caríssima vai, ainda, agravar os tempos de deslocação entre as duas cidades. Será que, neste Ministério, os peritos em caminhos‑de‑ferro andam distraídos?
Julgo
que não chega, penso eu, ser especialista em transportes (uma designação, no
entanto, muito vaga e envolvendo várias especialidades); também é indispensável
a prática de caminhos-de-ferro, já para não falar da AV, em particular.
Digo e insisto que esta solução
– defendida com unhas e dentes – não passa de um disparate. Tanto mais que
qualquer especialista (na verdadeira acepção do termo) dirá que os tráfegos
previstos não chegam para justificar a AV (só para passageiros, sublinho) a
qual, pelo seu custo, obrigará à prática de preços nada compatíveis com o nível
de vida dos portugueses.
A
propósito, apresento mais uma vez alguns números
actuais da AV no percurso Paris/Bruxelas, exactamente com o mesmo número de
quilómetros previstos pelo MOPTC para o novo traçado Lisboa/Porto
– 313 km: Confort 2 – 78 euros; Confort 1 – 122 euros. Um Sénior paga,
respectivamente, 54 e 85 euros. No nosso Alfa Pendular, um Sénior paga 12 euros
em 2ª classe para percorrer os actuais 337 km do percurso entre estas duas
cidades.
Lembro
que a TAP e a Portugália operam neste trajecto com 14 vôos diários,
sendo que o preço de um bilhete de ida e volta (o mais barato), com todas as
alcavalas, fica por 263,96 euros; ou seja, 132 euros por viagem –
porém em regime de quase monopólio. Pensem bem nisto, Srs. responsáveis da
RAVE .
Posso
ainda informar que há 25 comboios diários entre Bruxelas e Paris (das 6h43 ás
21h43) e, outros tantos, entre Paris e Bruxelas (das 6h25 às 23h31). Com
efeito, há um intervalo de cerca de 6 horas entre o início e o fim das circulações
diárias, intervalo este destinado às obras de conservação e de manutenção,
nas quais se inclui a passagem de um
comboio-laboratório específico, circulando a alta velocidade e fornecendo de
imediato todos os dados necessários relativos ao estado das infra-estruturas. Pois
é, a AV custa muito dinheiro e, para distâncias relativamente modestas,
inferiores a 200 – 300 km , o ganho de tempo não compensa o investimento .
Por
outro lado, no dizer dos especialistas, a área de influência da AV
não ultrapassa os 900 – 1.000 km (3 a 4 horas de viagem), o que significa
exceder um pouco Madrid e, sendo assim, os passageiros provenientes de
Barcelona, Roma, Paris, Londres, etc., continuarão a deslocar-se de avião para
atingir Portugal. E são, de longe, a maioria.
Ainda
há muito boa gente que não compreendeu que a
nossa ligação à Europa passa, especialmente, pela mudança de bitola –
adoptando a europeia – de forma faseada, o que pressupõe objectivos, sem dúvida, mas também uma estratégia que não vimos, até à data,
ser delineada. E, ainda, que essa mudança de bitola irá servir
preferencialmente, isto é, com maiores vantagens, o tráfego de mercadorias.
Donde resulta a recomendação para se adaptaram linhas de VE, até 220-250 km/h
de velocidade máxima (de "altas prestaciones" no dizer dos espanhóis,
para dourarem a pílula e calarem os "raivosos” da AV); o que nada tem a
ver com os 350 km/h adoptados pelos portugueses na linha Lisboa/Caia ignorando,
lamentavelmente, os acordos de interoperabilidade a que estamos obrigados .
E
assim, o MOPTC da forma leviana, é obrigado a apostar numa linha com cerca de
95 km de extensão destinada
exclusivamente ao tráfego de mercadorias; com um custo suplementar que
estimo em 600 milhões de euros, ou seja, em moeda antiga algo como 114 milhões
de contos. Haverá economia que resista?
Só
para termo de comparação: a barragem do Alto Sabor está avaliada em cerca de
350 milhões de euros (ou seja, 70 milhões de contos). E bem precisa é.
Não
havendo essa mudança de bitola, para evitar ficarmos isolados seremos obrigados
a comprar milhares de vagões e carruagens com eixos telescópicos e a instalar,
na via, os indispensáveis intercambiadores. Simplesmente absurdo dado que, de
forma idêntica, os estrangeiros não
estarão interessados em adquirir esse equipamento "não standard" o
qual, por esse motivo, é cada vez mais raro e caro; sendo assim, irão proceder
à descarga junto das nossas fronteiras, mas nos portos secos espanhóis ou nas
suas plataformas logísticas. Estas, então, ficarão cheias de contentores
à espera dos transportes TIR para o destino português atravancando, ainda
mais, as nossas estradas e poluindo o ambiente para mal de todos nós.
Será
que as nossas plataformas logísticas não passam de pura retórica? Entretanto
já há quem procure salvá-las implantando grandes urbanizações, a coberto de
alguns PIN's mais ou menos providenciais.
Mas não
me interpretem mal. A AV, sem dúvida, deu um forte empurrão no
desenvolvimento dos caminhos-de-ferro mediante os seus êxitos assinaláveis
no pleno técnico, comercial e, até financeiro; e também no turismo, nas
deslocações profissionais e no que se refere ao ordenamento do território.
Contudo, como escrevi muitas vezes (apoiado em números actualizados), tudo
isto se passa num contexto muito diferente do nosso – que eu conheço
razoavelmente bem – o qual nada tem a ver com a situação geográfica e
socio-económica do nosso país e regiões vizinhas de Espanha.
A implantação
da AV em Portugal deverá corresponder a uma necessidade (que ainda não
existe) e, por outro lado, deverá ser encarada como uma solução que defenda
os interesses de todos os
portugueses.
A
construção da rede de AV que o MOPTC pretende (certamente a financiar em
grande parte pelo orçamento do Estado), irá fazer derrapar ainda mais o défice
público, obrigando o país a entrar em regime de austeridade agravada, para
conseguir colocar as contas públicas nos limites estabelecidos pelo Pacto de
Estabilidade.
Esta
situação poderá piorar substancialmente na medida em que as obras públicas
custam, geralmente, o dobro ou o triplo do orçamento inicial (pelos mais
variados motivos que denotam, quase sempre, insuficiencia do projecto); problema
este. que perdura, dado que ninguém se atreve a condenar os políticos
e os responsáveis ao mais alto nível por este despautério. Arrogando-se,
mesmo, o direito a desautorizarem informações e despachos de sentido contrário,
devidamente fundamentados, provenientes dos respectivos Serviços. Assim, não
vamos lá.
Embora
se admita, e bem, que a rede de AV deverá ser construída em articulação com
a rede clássica (convencional), o certo é que o MOPTC já decidiu que a
entrada em Lisboa, pela margem direita do rio Tejo, se fará através de uma série
impressionante de túneis e viadutos a que já nos referimos anteriormente; e,
na sua margem esquerda, mediante a construção do imponente
viaduto Chelas-Barreiro com cerca de 12 km de extensão total o qual, dada a
previsível altura do seu tabuleiro (mais especialmente na margem direita do
rio), muito dificilmente poderá ser ligado à rede convencional. Além disso,
apresenta outros sérios inconvenientes que expusemos, pormenorizadamente, em
trabalhos já publicados: navegação no rio Tejo, aproveitamento turístico do
cais de Sta. Apolónia e tráfego aéreo no aeroporto do Montijo.
Por
outro lado, nesses trabalhos, demonstrámos que esse
viaduto não vai encurtar o trajecto da AV na linha Lisboa/Madrid. Antes pelo
contrário, aumenta o número de quilómetros a percorrer, assim como o
custo das infra-estruturas dadas as caracteristicas dos terrenos; mais
especialmente, há que ter em linha de conta a
enorme diferença de preço, para menos, com a construção de uma ponte
muitíssima mais curta a construir nas cercanias de V. N. Raínha (600-800 m),
em sua substituição. Já para não falar no agravamento dos tempos de percurso
resultantes do forte abaixamento da velocidade dos comboios durante a travessia
do "célebre" viaduto.
Chelas-Barreiro
ou, quem sabe, Alcochete-Bobadela em túnel sob o rio poderá vir a ser uma solução
aceitável para, um dia, se fechar a malha rodo-ferroviária ligando as zonas
urbanas a Norte e a Sul do rio Tejo. Numa perspectiva que irá facilitar, ainda
mais, a mobilidade suburbana nesta área .
4
-
Permitam-me, agora, um parêntesis: No dia 6 de Março p.pº, na
Sociedade de Geografia realizou-se um encontro destinado a debater a nova
travessia do Tejo: Chelas-Barreiro, tendo como oradora privilegiada a actual
SET. Nessa sessão, de acordo com o relato de um dos seus membros, foi feita uma
"importante chamada de atenção pelo Comandante Ferreira da Silva para o
facto desta o.a. ir dificultar extraordinariamente a navegação e nalguns casos
impedir a atracagem de grandes navios no cais de Sta. Apolónia, fundamental
para o turismo em Lisboa", além de "prejudicar significativamente a
utilização do Aeroporto do Montijo e inviabilizar a eventual futura utilização
do estuário do Tejo para a amarração de hidraviões, que poderão vir de novo
a ser utilizados".
Caso
curioso, o signatário já muito antes tinha alertado para estes inconvenientes
em 08.06.06, neste site, quando escreveu sobre o viaduto Chelas-Barreiro:
"Por falta de elementos credíveis, evito pronunciar-me acerca das implicações
deste viaduto no tráfego aéreo da base do Montijo cuja pista principal, no
seu enfiamento, ficaria a 3 km do mesmo". Alguns meses depois, em
20.11.06, também escrevi alertando para os inconvenientes da implantação
deste viaduto: "Lembro, entre outros nas proximidades, que o novo
Terminal de Cruzeiros de Lisboa está a ser projectado para uma capacidade até
cinco grandes navios, em simultâneo; há pouco tempo, esteve acostado em Sta.
Apolónia o terceiro maior navio de cruzeiros do Mundo, de 140.000 toneladas. O
maior de todos, o "Freedom" tem 160.000 toneladas e, sabe-se, a
“Royal Caribbean" está a construir um gigante de 220.000 toneladas com
capacidade para 8.000 pessoas".
"O
porta-contentores "Emma Maersk" tem 340 metros de comprimento e 61
metros de altura; já para não falar no porta-aviões "Enterprise"
(com 76,20 metros), há poucos dias de visita a Lisboa e que nem sequer se
atreveu a passar sob a ponte 25 de Abril ...".
"Acredito,
com um mínimo de bom senso, que não se devem projectar obras de arte para
casos esporádicos; porém, é evidente que temos de tomar em consideração as
tendências actuais, sob pena de ficarmos muito aquém das nossas aspirações".
O
que me parece muito estranho é que a SET – a quem enviei estes meus trabalhos
por e-mail – não tivesse tido a gentileza de acusar a sua recepção nem, tão
pouco, que eu saiba, tenha feita qualquer referência aos mesmos na referida sessão. É
pena, o que só se compreende pelo entusiasmo desmedido com que defende a
travessia Chelas-Barreiro, em Alta Velocidade ferroviária .
Para
mim, é evidente que subsiste um grupinho de eleitos no MOPTC, ou antes, uma
"coterie" de privilegiados a quem dão o direito de expôr os seus
pontos de vista nas sessões presididas pelos ilustres decisores; mantendo-se os
restantes convidados relegados ao mais severo anonimato, para não perturbarem
os seus brilhantes raciocínios. Quando muito, numa plateia escolhida de
muitas dezenas de pessoas oferece-se, magnanimamente (?) um período final de 20
m para perguntas... e respostas .
5
-
Fechado este parêntesis direi que, entretanto, apesar de já ter sido
tomada como definitiva a opção Chelas-Barreiro, ainda não se sabe ao certo
onde irá ficar a denominada Estação Central de Lisboa, outra ideia faraónica
cuja concretização, para o efeito, também nos parece desnecessária e vai
ao arrepio de outras soluções dispersas, conforme se depara noutros países,
nomeadamente em algumas cidades bem conhecidas; nesta ordem de ideias,
indicam-se as estações de longo curso e sublinham-se
as que servem a Alta Velocidade:
Berlim – Toma-se
como km 0 a estação de Ostbahnhof; Berlin Zoo a 9 km; Berlin Spandau a 21 km e Berlin Wannsee a 24
km.
Bruxelas – Estacões
do Midi Central e Nord separadas por
3 km umas das outras; a estação de AV é, de longe, a mais importante após
obras de grande vulto que transformaram todo o quarteirão .
Paris – Gare de
St. Lazare; G. du Nord; G.de l'Est; G. de Lyon; G. d'Austerlitz; G.
Montparnasse.
Londres – Gare de
Charing Cross; G. Waterloo; G. Paddington; G. Marylebone; G. Euston G. St. Pancras;
G. Kings Cross; G. Liverpool Street e G. Victoria.
O túnel
sob a Mancha foi inaugurado em 1994; contudo, apesar de Londres (Waterloo)
distar unicamente 94 km só este ano – espera-se – ficará concluida a
totalidade da linha LGV. O que permitirá uma melhoria sensível dos tempos
praticados pelo Eurostar entre Londres/Paris e Londres/Bruxelas; a estação
terminal da AV será em St. Pancras, após gigantescos trabalhos no subsolo de
Londres .
Veneza – Gare
Sta. Lucia e Gare Mestre,
separadas por 9 km.
Roma – Gare
Termini ao km 0; G. Tiburtina a 5 km e G. Ostiensi a 7 km.
Madrid –
Gare de Atocha e a de Chamartin, separadas por 8 km.
Porto – As estações
de Campanhã e de S. Bento estão separadas por 3 km; General Torres fica a 4 km
de Campanhã e V. N. Gaia a 6 km, uma e outra do outro lado do rio. Propomos
Campanhã e Caia como terminais da AV.
Lisboa – Sta. Apolónia
e G. Oriente estão separadas por 7 km. Conforme tenho sugerido, propõe-se a G.
Oriente para término da AV .
Prosseguindo o
roteiro em território nacional, sabe-se que a estação de Campanhã vai ser
adaptada a Estação Central da AV devendo, mais tarde, ligar directamente ao
aeroporto Sá Carneiro; de momento, esta ligação processa-se com recurso à
linha de Metro, de forma aceitável .
Pessoalmente,
nada tenho a objectar, de momento, a não ser esta pretensa exclusividade dado
haver vantagens óbvias em considerar-se um outro terminal na área de V. N.
Gaia evitando sobrecarregar-se ainda mais a ponte ferroviária de S. João;
presentemente, embora com algumas restrições, já é possível sair do comboio
em Gaia – hoje com mais habitantes
que o Porto – e, nesse mesmo local, tomar o Metro até esta cidade ou, então,
com destino ao seu aeroporto, aproveitando-se a travessia do rio Douro sobre a
ponte D. Luís para nos deliciar com uma vista lindíssima. Gaia e Porto,
conjuntamente, têm cerca de 550.000 habitantes .
O trajecto no
Alfa Pendular entre a Gare do Oriente e V. N. de Gaia demora, no minimo, 2 h
40 m, com duas paragens intermédias. À semelhança do que se passa no Porto,
dentro em pouco será possível em Lisboa, usufruir uma ligação directa ao
aeroporto da Portela a partir da Gare do Oriente, mediante uma linha de Metro em
construção. Sta. Apolónia, terminal de muitos comboios, bem no coração de
Lisboa, dista somente 7 km da Gare do Oriente e, dentro em breve, também estará
ligada à rede de Metro .
Sugerimos por
várias vezes, em trabalhos anteriores, que se lancem dois ou três comboios diários
em cada sentido – por exemplo, dois directos sem paragens intermédias e, os
restantes, com paragens alternadas em Aveiro, Coimbra ou Leiria – de modo a
facilitar as viagens de negócios, com partidas de manhã cedo e regresso ao fim
da tarde. Horários adequados garantem, certamente, um maior número de clientes
.
Para
"bater" o avião, basta efectuar este trajecto em 2 h 35 m (ver o meu
texto de 07.11.05), isto sem entrar em linha de conta com os atrasos muito
frequentes que tanto penalizam os vôos. Neste percurso um AP poderá facilmente
baixar os tempos de viagem actuais para 2h 26 m, suprimindo as paragens intermédias:
2 x 7 m = 14 m a subtrair aos actuais 2 h 40 m (esclareço que os 7 m
correspondem aos tempos de paragem propriamente dita a adicionar aos de aceleração
e desaceleração).
Nesta hipótese,
a velocidade média comercial sobe para 138,5 km/h perfeitamente ao alcance
destes comboios .
Sem grande
imaginação compreende-se, agora, os ganhos de tempo que seria possivel obter
uma vez terminada a modernização do trajecto Lisboa/Porto, melhorando as
performances concomitantemente com a transformação da suspensão de todas as
carruagens e tornando-as aptas para velocidades mais elevadas; deste modo,
seriam aproveitadas todas as potencialidades do AP o que já não é sem
tempo.
De salientar
que a capacidade desta linha, pode aumentar substancialmente com a implementação,
em toda a sua extensão, do sistema europeu de sinalização ERTMS, o que será
também uma garantia de segurança.
Segundo
parece, não é isso o que o MOPTC pretende, o que denunciei em 08.08.06, no capítulo
intitulado "Política restritiva tendente a dar prioridade aos
investimentos na AV". Não há, pois, vontade política para desenvolver
uma alternativa muito mais barata, para enfrentar o avião ou o trânsito automóvel,
pelo que podemos concluir que este Ministério condena, sem apelo nem agravo, a
actual linha Norte-Sul, destinada a passageiros.
Embora seja
estranho, mantem-se ainda a indefinição no que se refere à localização
exacta das estações de Aveiro, Leiria, Ota, Évora e Elvas/Caia sendo que esta
última, segundo declarações prestadas pelo Sr. Ministro, será
“rigorosamente a meio da linha de fronteira". Tal preciosismo deixa-me
perplexo e assusta-me por ser desnecessário entre países da UE e, mais ainda
porque não se sabe o que lá iremos encontrar...
6 -
Entretanto, apesar de todas estas indefinições, o MOPTC foi avançando
com os traçados das novas linhas de AV – às pinguinhas – para não perder
o controlo; isto é, adjudicando troços relativamente curtos a várias empresas
de consultoria da especialidade (?), retirando assim aos projectistas a
possibilidade de os definirem da melhor forma. Deste modo, os traçados quase se
confundem com as directrizes estas, sem dúvida, da responsabilidade política
do Governo.
Já tivemos
ocasião de apontar as más consequências desta forma de proceder, nomeadamente
no que diz respeito ao aumento injustificado do número de quilómetros dos
percursos ou, ainda, à tentativa de "forçar" o traçado Lisboa/Caia
a passar pelo viaduto Chelas-Barreiro e, também, ao somatório de túneis e
viadutos a construir na margem Norte do rio Tejo, para se atingir Lisboa.
Os
empreiteiros aplaudem e agradecem (o que se compreende), tanto mais que foram
indicadas outras alternativas.
O MOPTC quando
não lhe convém – o que sucede muitas vezes – usa o silêncio como arma política:
ignora ou não responde. O que não me parece próprio em democracia, se
admitirmos que algumas propostas possam ser pertinentes .
Outra táctica
consiste em mandar elaborar uma miríade de estudos, por vezes supérfluos
outras vezes contraditórios, mas com a vantagem de neutralizar eventuais adversários
e, por outro lado, poder contar com a colaboração dos escolhidos .
Resumindo: o
MOPTC, na posse dos mais variados estudos – muitas vezes sem grande rigor por falta notória dos elementos de
suporte indispensáveis – procura, assim, justificar o atraso da escolha;
então, quando lhe parece oportuno escolhe uma solução e não admite contraditório.
Pois se foram feitos tantos estudos e o país não pode esperar mais... Está
assim justificada a política do facto consumado. É pena, visto que esta forma
de proceder limita-se a alimentar algumas vaidadezinhas (suponho), muito embora
possamos correr o risco de suportar fortes desilusões e pagarmos muito caro,
futuramente, este amadorismo .
Será que não
há outras soluções para a modernização da nossa
rede de caminhos‑de‑ferro?
Estarão
cientes que o traçado da uma linha de AV, para a velocidade máxima de 350
km/h, não é o indicado para uma linha
da tráfego misto, conforme foi adoptado pelos espanhoís no percurso
Badajoz/Madrid com o nosso acordo
numa Cimeira conjunta?
Estarão
cientes que uma desaceleração muito rápida, a essa velocidade, irá traduzír-se
numa via deformada pelas vibraçães resultantes? Ficando essa linha aos SS? E
que a essa velocidade, uma travagem brusca só permitirá parar cerca de 3,5 km
depois?
Saberão que
as catenárias e os pantógrafos terão de ser "afinados" para determinadas
velocidades máximas, com custos muito elevados? E que os raios mínimos das curvas
deverão ser iguais ou superioras a 4.000m? E que as rampas de uma linha mista
terão sempre gradientes e comprimentos inferiores aos de uma linha de AV? E que
esta necessita de um carril UIC 60, tipo B, mais duro e mais caro, e que as
travessas terão pesos individuais iguais ou superiores a 245 kg (em Espanha,
315 km) para se poder garantir a estabilidade da via? E que os melhores
resultados obtem-se com a inclinação 1/20 dos carris e o seu afastamento
(bitola) rigorosíssimo, para evitar a todo o custo os movimentos de lacete
(laterais)? O que obriga, também, a reforços nos amortecedores das carruagens.
Saberão eles
que nas curvas há uma sobreelevação na perna alta do carril (o do lado
exterior), em função das velocidades praticadas? E que as distâncias entre os
eixos das vias terá de ser aumentada para 4,20m em vez dos 3,60 a 3,70m nas
linhas clássicas, para enfrentar as ondas de choque, na passagem de dois
comboios em sentidos contrários? E que o balastro terá de ser com pedra
escolhida (preferencialmente gneiss, pórfiro, basalto), composto por brita
passada no crivo 25/50 e com um coeficiente de dureza igual ou superior a 16? E
com a espessura de 35 cm maior, portanto, do que numa linha clássica? E que, em
virtude das velocidades muito elevadas, as solicitações dinâmicas para o cálculo
das obras de arte são maiores ?
Saberão,
ainda, que nas zonas sísmicas é indispensável implantar na via uma miriade
de sensores capazes de alertar, de imediato, para qualquer movimento anormal?
Poderia
prosseguir neste enunciado mais ou menos exaustivo. Mas, para já, lembro que a
AV exige tecnologias muito sofisticadas que não temos e, consequentemente, uma
dependência quase total do exterior; por isso, direi que não basta definir políticas
por muito boas que pareçam: antes de mais, é preciso perceber se há, ou não,
meios para as executar .
7 - Na Europa, segundo a UIC, estão
em construção as seguintes linhas de AV; indicam‑se, também, as
previsões para o seu termo :
|
País |
km |
Ano |
|
Espanha |
509 |
2007 |
|
França |
320 |
2007 |
|
Reino
Unido |
39 |
2007 |
|
Alemanha |
88 |
2008 |
|
Países
Baixos |
120 |
2008 |
|
Espanha
/ França (Figueras – Perpignan) |
49 |
2009 |
|
Itália |
328 |
2010 |
Observação- A
França, o pais de origem dos TGV (sigla patenteada da SNCF) dispõe,
actualmente, de uma rede ferroviária que se descrimina :
- cerca de 1.860 km de linhas de AV ( LGV);
- 5.500 km de linhas clássicas melhoradas;
- 30.000 km de linhas clássicas (convencionais).
Vejamos agora
um pouco mais longe, as previsões para 2020, focando alguns países que têm sido apontados como casos excepcionais de
sucesso nos campos económico e social: lembro a Irlanda, a Dinamarca, a
Finlândia, a Suécia e a Noruega .
Pois bem.
Nenhum deles, actualmente, dispõe da
AV; podem acrescentar, porém, que talvez esteja prevista para breve, digamos em
2010. Mas não é assim, com excepção da Finlândia que pretende construir um
modesto troço com cerca de 80 km de via entre a sua capital e a cidade de Lahti;
os restantes países, nessa data, continuarão sem esse tipo de transporte .
E futuramente,
insistem? Em 2020, respondo, de acordo com as previsões anunciadas, a Irlanda e
a Noruega continuarão sem a AV; a Dinamarca disporá de uma pequena ligação
internacional com Malmö na Suécia; a Finlândia continuará a dispor do pequeno
troço acima referido; e só a Suécia (que apostou, claramente, nos pendulares
com velocidades máximas de 220 km/h), irá construir cerca da 600 km de linhas
de AV entre Estocolmo/Göteborg/Copenhague. E, já agora, direi que o Reino
Unido continuará a optar pela VE sem que pense construir qualquer outra linha
de AV.
Pelos vistos,
o mesmo não vai suceder em Portugal
que, segundo as declarações do actual Governo, deverá dispor aproximadamente
690 km de linhas de AV, nos trajectos Lisboa/Caia e Lisboa/Porto/Vigo. Pobres,
sim, mas com pretensões.
Repito a
pergunta: Será que não há outras soluções, mais adequadas, para a modernização
dos nossos caminhos‑de‑ferro? Será que o caminho da felicidade
passa – obrigatoriamente – pela AV? Será que todos os restantes países da Europa que não optaram, ou ainda não a têm
estarão, todos eles (de longe, a maioria) inferiorizados, por isso mesmo?
A AV –
depressa e já – significa que iremos perder o controlo desta infra-estrutura
de alta tecnologia, uma vez que não possuímos os meios humanos e materiais
indispensáveis para a sua implementação e a indispensável manutenção que
exige oficinas próprias dotadas de um equipamento sofisticado. Mais uma vez,
serão os estrangeiros a tomar conta do processo, com gastos enormes para o país.
O MOPTC
comprometeu-se com determinadas soluções e, agora, com uma boa dose de orgulho
mal colocado não está disposto a alterá-las; talvez à mingua de
conhecimentos, talvez porque não saibam como encontrar alternativas válidas
.
Lembro, sem
irreverência, que a Comissão de Infra-Estruturas da UIC (União Inter-
nacional dos Caminhos‑de‑Ferro) põe à disposição dos seus
membros (entre os quais Portugal, através da CP e da REFER – com um membro
cada):
– uma plataforma de
discussão e troca de experiências;
– uma estrutura
coordenada para a cooperação;
– organismos de estudos para o lançamento,
implementação e seguimento de todos os projectos interessando a gestão das
infra-estruturas .
Desculpem a
franqueza (haverá, certamente, quem não me perdoe). Mas, depois do que
considero um descalabro com o recurso aos mais variados consultores e especialistas
(possivelmente nem todos eles os mais indicados para estes estudos) e, por último,
aos australianos tidos em alta conta pela actual SET, julgo que poderia –
deveria – recorrer-se a um orgão do idoneidade indiscutível para ver se
ainda será possível ultrapassar tanto desnorte.
8 – Os Partidos políticos e as grandes obras públicas
Lá diz o
velho ditado: mais vale tarde do que nunca. Vem isto a propósito das acirradas
discussões acerca do aeroporto da Ota e do impropriamente designado TGV. Como
seria de esperar, este é mais um pretexto para atacar o Governo em exercício
e, assim, é ver quem grita mais alto e, por outro lado, quem é que está
isento de culpas no cartório e, por isso, não pode ser responsabilizado pelas
soluções (polêmicas) propostas.
Para clarifìcar
a situação e, eventualmente, acalmar os ânimos vejamos, de modo muito
sucinto, o que foi apresentado nos programas eleitorais dos diferentes partidos
antes das últimas eleições legislativas; limitar-me-ei a considerar as linhas
do AV e o Novo Aeroporto, os mais discutidos. Os leitores julgarão.
|
Caminhos‑de‑ferro
AV |
Aeroportos/OTA |
|
|
PS |
§
Definição final do traçado, das suas características
físicas e de gestão, bem como o calendário da futura rede ferroviária
de alta velocidade (TGV); §
Início da construção do troço Lisboa/Porto em
alta velocidade; §
Promoção das ligações transfronteiriças
interoperabilidade de acordo com as normas europeias assegurando a
articulação das redes ibéricas e o cumprimento de compromissos
internacionais; §
Melhoria dos acessos rodo-ferroviários... §
Aprovação de um plano nacional de ordenamento
logístico com modelos participados e eficazes para a sua gestão e
acessibilidades rodo-ferroviárias adequadas. |
§
Retomar o processo relativo ao novo Aeroporto da
Ota, redefinindo o respectivo calendário à luz dos dados actuais... |
|
PSD |
§
Queremos: §
Lançar as novas travessias do rio Tejo... e na
vertente ferroviária de alta velocidade entre Chelas e Barreiro. §
Assegurar a conclusão das ligações ferroviárias
de Alta Velocidade entre Lisboa e Porto, Porto e Vigo e Lisboa e Madrid e
lançar os estudos para as restantes, ligações da rede. §
Desenvolver o traçado de mercadorias Setúbal-Sines-Casa
Branca-Badajoz, ligando os portos de Setúbal e Sines a Madrid através de
uma linha de mercadorias de elevado desempenho . |
§
Prosseguir os estudos relativos ao aeroporto da
Ota de modo a poder caracterizar adequadamente o empreendimento. §
Manter as medidas de salvaguarda relativas aos
terrenos, para o aeroporto da Ota, reservando a opção do início da
sua realização, quando se venham a verificar restrições e capacidade
do aeroporto da Portela, não expectáveis até daqui a duas décadas . |
|
CDS-PP |
...
Promoção, com recurso a políticas integradas e sectoriais, do
transporte de mercadorias via ferroviária... f)
Criação de linha ferroviária de Velocidade Alta (Lisboa-Porto/Lisboa-Faro); g)
Criação de linha ferroviária de Alta Velocidade (Porto-Vigo/Lisboa-Badajoz/Sines-Badajoz); |
m)
Conclusão da modernização do aeroporto Sá Carneiro, no Porto e
da ligação à rede ferroviária suburbana; n)
Optimização da capacidade operacional do aeroporto da Portela, em
Lisboa, e ligação do mesmo à rede de metropolitano; |
|
BE |
§
A modernização da CP... Nesse sentido, o TGV não
é uma prioridade e deve ser reduzido à ligação internacional com a
rede europeia... |
Nada se diz sobre aeroportos |
|
PCP |
§
Elaborar um Plano Nacional, de Transportes Logística,
integrado... §
Apostar de modo decidido na alta velocidade
ferroviária... por forma a construir uma malha coerente e funcional,
ligando as diferentes velocidades... |
Calendarizar a construção do
novo aeroporto de Lisboa... definido definitivamente a sua localização... |
Observações:
Julgo poder concluir dois anos após estas tomadas de posição:
a) Todos os
partidos propõem, com mais ou menos entusiasmo, ao soluções de AV com excepção
do BE, mais prudente, admitindo uma só ligação internacional (TGV, sic), com
a rede europeia;
b) Todos eles
esquecem algo que nos parece fundamental, isto é, a ligação em VE
Porto/Aveiro/Salamanca; a região Norte, mais uma vez, parece ter sido
abandonada apesar da sua contribuição decisiva nas exportações;
c) Com alguma
admiração vimos o PCP rendido a uma aposta decidida na AV (velocidades máximas
iguais ou superiores a 250 kn/h), sabendo-se que esta solução é muito cara e
traduz-se, por isso mesmo, em preços elevados; isto quer dizer uma solução só
para alguns privilegiados;
d) No que diz
respeito aos aeroportos, o PS e o PSD aceitam, sem ambiguidades, a localização
do Novo Aeroporto da Ota;
e) O CDS-PP
admite, unicamente, a optimização da Portela;
f) O BE nada
diz sobre este assunto e o PCP prevê a sua construção, uma vez definida a
sua localização... como é óbvio .
Não se
compreende, pois, o frenesim e a indignação do actual líder do PSD no que se
refere à escolha, pelo Governo, da localização do Novo Aeroporto da Ota;
ficou bem claro que era essa a sua opção, antes de ser derrotado nas eleições;
o programa do seu Partido retira quaisquer dúvidas que porventura possam
subsistir.
Deste modo, a
sua atitude demonstra cegueira política; em suma: uma "birrinha" de
quem não gosta de assumir responsabilidades. Lembro que o programa em análise
propunha prosseguir os estudos da Ota
de modo a poder caracterizar o
empreendimento; confirmando as medidas de salvaguarda dos terrenos a ela
destinados reservando, apenas, o início
da sua realização quando se venham a verificar restrições na capacidade
do aeroporto da Portela (os sublinhados são meus). Bem claro, não é ?
9 -
Recordo o que escrevi neste site, em tempos, sobre o Novo Aeroporto da
Ota.
“Pensa-se que a Ota poderá servir de placa giratória, absorvendo os
fluxos turísticos (e não só) da América, África e Oriente. O principal
objectivo será criar aquilo que se chama um “hub”, isto é, um aeroporto
principal que concentre as partidas e chegadas de aviões com capacidades
diferentes; e, em consequência, fazer corresponder os vôos curtos e médios
com os de longa duração, de forma a limitar ao mínimo possível o tempo de
espera dos passageiros.
É evidente que se continuarmos a acumular atrasos na concretização de
projectos estruturantes, será Madrid que irá preencher este nosso desideratum,
ficando definitivamente prejudicada a estratégia de colocar Portugal como
primeira plataforma atlântica da Europa.
A Ota ficará sensivelmente à mesma distância de Lisboa (~ 50 km)
que o aeroporto de Stansted, a 55 km de Londres, ou mesmo o de Oslo ou, ainda, o
de Milão... Outro aspecto que não deve ser ignorado refere-se ao facto dos
principais aeroportos terem vida própria e, assim, acabam sempre por ficar
rodeados de hoteis, comércio, escritórios das grandes companhias, etc. ... À
sua volta desenvolvem-se muitas actividades económicas, o que leva a sua
clientela a privilegiar aí mesmo a sua estadia, sendo as cidades que os
justificam destinadas preferencilmente a deslocações complementares ou de
turismo. É o que sucede um pouco por todo o lado, como em Madrid, Londres,
Paris, Milão, Frankfurt, etc., só para falarmos na Europa”.
Completando um pouco mais este texto, diremos que o aeroporto que serve
Estocolmo fica a 44 km de distância; o de Malpensa, a 45 km de Milão; o PIK A
61 km de Glasgow; o de Gatwick a 45 km de Londres e o OSL a 49 km de Oslo.
Neste momento, muitos vôos “low cost” da Ryanair aterram em Beauvais, a
55 km de Paris. Entretanto, os franceses já estão a estudar há, pelo menos, 5
anos o Novo Aeroporto que irá servir a sua capital, no início da década de
2020: ficará em Chaulmes, também a Norte de Paris, do qual distará cerca de
121 km.
Não é, pois, a distância um entrave que possa prejudicar
irremediavelmente o novo aeroporto da Ota. O que conta são os tempos gastos nas
deslocações para o atingir e, por isso mesmo, se admite uma “navette”
(equipamento ligeiro muito mais barato do que o caminho‑de‑ferro)
podendo chegar a Lisboa em local a determinar; escolhido, porém, o seu traçado
de modo a que “liberte” o canal ferroviário V. N. Raínha/Sta. Apolónia.
Nas actuais circunstâncias,
sublinho, se vier a concretizar-se o viaduto Chelas‑Barreiro, o projecto
da Ota poderá ficar muito prejudicado; senão vejamos:
A linha de AV
proveniente de Madrid entrará em Lisboa através desse viaduto, segundo os
desejos do MOPTC. Então, pergunta-se, será possível acreditar que os seus passageiros,
desejosos de tomarem um vôo "hub" sejam obrigados a vir até Lisboa
para, seguidamente (aguardando a transferência), embarcarem na
"navette" ou num outro comboio de AV que os conduza ao aeroporto da
Ota? Só com uma grande dose de ingenuidade ou de ignorância.
Mais tarde, em
24.11.05, também escrevi: “...é um facto que a Portela está neste momento esgotada (recusa muitos vôos e não
se posiciona para outros tantos), sendo que as obras necessárias para um
segundo fôlego, com a morte anunciada, irão custar muito dinheiro.
Por outro
lado, os prejuízos ambientais e os riscos são, para já, muito elevados e,
futuramente, as normas europeias do
restrição de vôos noturnos irão dificultar ainda mais.
Também é um
facto que a ideia de complementaridade deste aeroporto com outros limitrofes
(Alverca, Montijo, etc.) não passa de uma ideia peregrina, sem qualquer consistência
técnica e económica.
Ignoro,
sinceramente, se a Ota propriamente dita será ou não o local indicado para a
nova aerogare internacional de Lisboa, pelos motivos que adiante se expõe; porém,
em temos latos, diria que esta localização (com mais ou menos quilómetros de
desvio) parece-me ser a mais apropriada em termos de ordenamento do território...
...Porém,
nesta localização já decidida, há muitos aspectos técnicos e económicos a
ponderar. Entre eles: a privatização da ANA irá ou não "arrastar"
a dos outros aeroportos principais do Porto e Faro? Em termos de projecto também
se ignora muita coisa e isso é fundamental para se estabelecer uma estimativa
dos custos e, a partir dela, os estudos económicos indispensáveis; por
exemplo: os cerca de 50 milhões da m3 de aterros e outros tantos de
escavação irão equilibrar-se, isto
é, podem aproveitar-se totalmente as
terras extraídas, para a construção dos aterros? Qual a distância média de
transporte e, em consequência qual o tipo de equipamento a utilizar, o que é
fundamental para se estabelecerem os custos? Por outro lado, as terras
existentes serão compatíveis com a sua compactação ao grau óptimo de
humidade, ou não? Haverá que corrigir os solos com outras terras e, nesta hipótese,
a que distância ficam as câmaras de empréstimo ? Tudo
isto e muito mais é necessário e indispensável saber e, sem
isto, não será possível estabelecer uma estimativa séria e, muito menos,
calcular a viabilidade deste projecto. O que me deixa perplexo quanto ao grau de
exigência dos economistas e engenheiros que se pronunciaram...
E, note-se,
estamos unicamente a falar da base e da sub-base dum aeroporto que, sabe-se, terá
um sistema de drenagem muito complexo visto implantar-se em parte, sobre um
leito de cheia .
Dizer o contrário
ou, então, esconder a realidade é uma prova de desonestidade intelectual ou de
muita ignorância. Nem uma coisa nem outra são de prever no que se refere às
informações que foram vinculadas por técnicos... do ministério mais técnico
deste Governo".
O projecto do
aeroporto da Ota (caro e bastante difícil) poderá ser substancialmente
favorecido, penso eu, mediante a sua deslocação por algumas centenas de metros
e, quem sabe, uma ligeira rotação das suas pistas .
Seria desejável
que sobre esta matéria se pronunciassem, publicamente, alguns pilotos
credenciados e, também, alguns técnicos independentes, não vinculados a qualquer
outra solução. Dadas as características desta obra, não é demais pensar na
colaboração de equipas multidisciplinares capazes de discutirem abertamente,
sem entraves e, se isso for possível, chegarem a conclusões, mesmo que isso
signifique alguma divergência .
Porém, algo
me preocupa e muito, visto que o projecto deste aeroporto aparece, cada vez
mais, associado à privatização da ANA, empresa pública altamente rentável
(ignora-se em que percentagem). E, à medida que avançam os estudos e se toma
consciência dos custos muito elevados admite-se, também, que a sua concessão
se possa dilatar por mais anos: 30, 40, 50 anos. Até onde ?
E evidente que
se trata de uma habilidade, pouco recomendável para que os privados se possam
interessar pelo negócio. Tudo isto é muito fluido e vago, havendo a nítida
sensação que estão a ser tomadas decisões nas costas dos portugueses .
Não
restam dúvidas, porém, que a ANA é uma empresa de alto interesse estratégico
para o nosso país e é inpensável que qualquer Governo abdique de tomar
medidas conjuntas – necessárias e indispensáveis – com os restantes
aeroportos nacionais que englobam o universo desta empresa.
É caso para
perguntar: e a soberania nacional? Julgo que o povo português tem o direito a
uma explicação franca, detalhada e atempada; assim se espera.
10 - A entrada em Lisboa pelo canal ferroviário Lisboa/Azambuja
Por várias
vezes referi, justificando, a possibilidade de se quadruplicar estas linhas e,
caso necessário, acrescentar mais duas outras às primeiras, perfazendo um total
da 6. O que permitiria dispensar a construção do polémico viaduto
Chelas-Barreiro, a substituir por uma ponte localizada a montante, nas cercanias
de V. N. Raínha; esta, muito mais barata e sem apresentar os inconvenientes
urbanísticos e ambientais do viaduto (ver, neste site, os meus textos de
25.09.05, 24.12.05 e 06.01.06 e 20.11.06) .
Ficou, também,
assinalado que a entrada em Lisboa por este canal iria encurtar o trajecto
Lisboa/Caia em 22 km, com uma diferença de custos muito grande; além disso,
comparando os tempos da viagem que propuz em VE, com os do traçado em AV
defendido pelo MOPTC, a diferença de tempo, para mais, na hipótese por mim
defendida era, somente, de 12,8 m.
Outra das
vantagens a destacar, é que o acesso à Ota poderia ser quase directo (através
da ponte acima referida), libertando-se o canal ferroviário até Lisboa e
fomentando-se o turismo na linha do Oeste; permitindo, também, a passagem
directa dos comboios provenientes do Norte em direcção ao Algarve, evitando o
desvio pela capital.
Esta solução,
naturalmente associada à "coulée verte" – parque de vegetação a
construir sobre os túneis na área de V. F. Xira/Alhandra
(ver texto de 24.12.05) – iria favorecer, inegavelmente, as populações
ribeirinhas da margem Norte do rio Tejo, hoje divididas pelo caminho-de-ferro
cujo tráfego tem causado, demasiadas vezes, desastres mortais dado que os
comboios aí passam com velocidades muito elevadas; divisão esta que, também,
lhes dificulta e muito a acesso ao "seu rio" Tejo .
Oportunamente,
tive ocasião de enviar o trabalho acima referido à Sra. Presidente da C.M. de
V. F. Xira, patenteando-lhe a minha total disponibilidade para esclarecer
pessoalmente estes pontos de vista, a titulo gracioso, mesmo que para isso
tivesse de me deslocar. Recebi, como resposta, um agradecimento formal e, até
á data, nada mais aconteceu, pelo que depreendo o seu desinteresse .
Ou, talvez, não
queira encarar uma solução rejeitada pela actual SET, demais a mais, sendo
ambas do mesmo partido o que poderá facilitar uma troca de impressões .
Porém, como
facilmente se compreende, a megalómana construção de um novo traçado com túneis
e pontes, pela margem Norte, não irá aliviar o actual canal ferroviário, dado
que a nova linha está unicamente prevista (e mal) para passageiros; deste modo,
o canal existente estará para ficar e durar, com todos os perigos e
inconvenientes que apresenta, entre eles, a dificuldade na travessia das linhas
através da uma ponte com muitos degraus e, por isso mesmo, pouca acessível a
velhos, mulheres grávidas e crianças, entre outros .
Como parece lógico
mais tarde ou mais cedo, os interesses da autarquia irão prevalecer sobre
quaisquer eventuais inclinações pessoais ou partidárias; o bem público assim
o exige, tanto mais que estes trabalhos seriam, certamente, suportados em grande
parte pelo Estado a pela RAVE/REFER .
Já agora,
recordo que em Outubro de 2001 o, então, Presidente da CP também defendia
publicamente a passagem, em túnel, na travessia de Vila Franca. Actualmente,
ocupando altos cargos no MOPTC, ignoro qual é a sua posição e, mais ainda,
se tem a coragem de a defender publicamente; a coerência, por vezes, custa
muito .
Tenho abordado
este tema por várias vezes; porém, ele ainda oferece duvidas a alguns
leitores. Direi que à semelhança do que se passou no troço V. F.
Xira/Alhandra, o qual percorri a pé e descrevi com algum pormenor no meu último
trabalho de Novembro passado, o mesmo fiz no trajecto entre a Gare do Oriente e
Sta. Apolónia que calcurriei mais de uma vez.
Antes de mais,
rearfìmo que, em terreno plano, são
precisos perto de 17 metros de plataforma para implantar 4 linhas de AV com os
afastamentos indispensáveis para que o cruzamento dos comboios se faça sem
qualquer abrandamento de marcha, e um pouco mais de 25 metros para se
implantarem 6 linhas em condições idênticas.
Tendo
analisado anteriormente o troço V. Franca/Alhandra/G. Oriente, iremos agora
fazer o mesmo para o da G. Oriente/Sta Apolónia. Como estarão recordados,
considerei em Lisboa 3 estações terminais:
§
Gare do Oriente,
destinada à AV;
§
Sta. Apolónia para
os suburbanos e os restantes comboios clássicos (convencionais);
§
Terminal próprio
para a "navette" que fará a ligação com o aeroporto da Ota, em
linha própria, muitíssimo mais fácil de concretizar, dadas as suas características
(para uma velocidade media comercial de 150 km/h necessita de 18 m para este
percurso; muito menos do que geralmente sucede no trânsito caótico de Lisboa).
Pormenorizando,
agora, o troço G. Oriente/Sta. Apolónia:
Actualmente,
esta Gare apresenta-se com 8 linhas (3X2+2); a partir daqui passam a 4 linhas até
ao Braço da Prata onde bifurcam, seguindo duas para Sintra e outras duas até
Sta. Apolónia onde se constata a existência de 7 terminais .
Parece-nos fácil
alargar a plataforma até ao Braço da Prata, desde que se prolongue a ponte
em frente da Galp (2 vãos passando a 3) e um pontão em frente da Xerox – J.
B. Fernandes (produtos siderúrgicos). Passaríamos, assim, para 6 linhas .
A ponte da Av.
Marechal Gomes da Costa tem cerca de 25 m de vão e, portanto, chega; mais
adiante, após a estação, a ponte sobre a Av. Infante D. Henrique também
deverá dar passagem a quatro linhas pelo que seria necessário alargá-la
(possivelmente com uma estrutura de betão e ferro, para não interromper o tráfego
actual), permitindo a bifurcação com 2 linhas para Sintra e 4 para Sta. Apolónia
.
Pensamos que a
estação de Braço da Prata pode – e deve – ser alargada na sua plataforma.
Parece-nos altamente vantajoso considerar 6 linhas até esta estação (em vez
das 4 actuais) admitindo-se a hipótese de servir de "trop plein" à
Gare Oriente, o que permitirá absorver mais alguns comboios em caso de
necessidade – é previsível que os suburbanos irão crescer, e muito.
Após a
bifurcação deparamos com 4 pontões, (um deles sobre a Rua Direita de Marvila,
e outro sobre a R. José Domingos, e ainda mais dois na Calçada Duque de Lafões
e na Calçada do Grilo), sendo o alargamento mais simples nos dois primeiros e
mais custoso nos últimos.
Porém,
insisto, julgo que se deve procurar meter
4 linhas em Lisboa a partir do Braço da Prata e, sendo assim, teremos
algumas dificuldades a vencer na ponte sobre o Largo Marquês de Niza e nos seus
acessos, um pouco antes e um pouco depois.
Antes, no que
se refere ao alargamento da plataforma junto ao Teatro Ibérico e no Beco dos
Toucinheiros onde será necessário tirar uma pequena fatia; por sorte, no
referido Beco, todo ele está ocupado num dos seus lados pelas Oficinas Gráficas
do Ministério da Agricultura (Secretaria Geral), supostamente vago, em parte.
Depois, em
frente ao Museu do Azulejo e Madre Deus, parece-nos que há possibilidades de
alargar o aterro do lado do rio. A passagem sobre o Largo Marquês de Niza, a
ajuizar pelo seu aspecto exterior, agradece qualquer intervenção no sentido de
remoça-la.
Dai em diante
está-se a jogar em casa, isto é, os últimos 1.300m de linhas estão
implantadas em zona de influência da CP/RAVE/REFER que farão aquilo que muito
bem entenderem. Fazemos votos que seja para o bem de todos nós: façam as
contas e comparem.
H. Oliveira Sá, 25 de Abril de 2007
e-mail: henrique.oliveira.sa@clix.pt
site: http://caminhosferroaltavelocidade.planetaclix.pt