FALANDO
SOBRE TRANSPORTES. AS FALÁCIAS DO MOPTC ( 2ª PARTE)
Os meus leitores deverão estar recordados
de alguns propósitos que procurei defender no texto que publiquei neste sítio,
em Junho passado, mas que hoje irei limitar à linha Lisboa/Madrid, viaduto
Chelas-Barreiro e ás auto-estradas marítimas do Arco Atlântico.
1 – Algum tempo
após a publicação do meu trabalho acima referido, tive conhecimento que o
percurso espanhol entre Madrid e Badajoz, passando por Talavera, Cáceres e Mérida
(actualmente com a extensão de 461 Km) deverá ficar mais comprido do que eu
previa rondando, agora, os 430 Km; o que vem confirmar a ideia que os espanhóis
não estão interessados na muito
alta Velocidade, contentando-se – e bem – com a velocidade Elevada e que a
Ministra do Fomento chamou de “altas prestaciones” para contento dos pacóvios
de cá e de lá.
Caso se confirme esta informação, os
tempos gastos na totalidade do percurso Lisboa/Madrid ficarão mais agravados.
1ª
hipótese – AV em território
português e VE no espanhol:
61m + 156,3m, ou seja 3 h e 37,5 m.
2ª
hipótese – VE em todo o percurso:
82,5m + 156,3m, ou seja 3 h e 58 m.
E, sendo
assim, as pretensões do MOPTC ficarão a grande distância de se concretizarem.
Saliento, mais uma vez, que não
é admissível considerar o tráfego misto (passageiros e mercadorias) numa
linha com as características de muito alta velocidade conforme pretende
este ministério, em território português. Qualquer ferroviário poderá
confirmar o que eu digo, baseado em argumentos que, por serem elementares, não
vou repetir. Insistir neste erro é um perfeito disparate.
Contudo, é isso mesmo que o MOPTC quer e
a RAVE aceita ao escrever no seu relatório de Contas de 2007: “As simulações
efectuadas permitiram confirmar o tempo de ligação dos serviços directos
entre as duas capitais da Península Ibérica de 2 horas e 45 minutos. A linha
permitirá velocidades de 350 Km/h e está a ser construída para suportar também
o tráfego de mercadorias que circulará na infra-estrutura a velocidades da
ordem dos 120 Km/h”.
Estou certo que estas afirmações ficarão
ligadas, para sempre, à antologia das asneiras que têm sido debitadas pelos
responsáveis deste organismo.
Recordo, também, que este trajecto não
contempla a passagem pelo novo aeroporto (NAL), caso contrário seria mais
extenso. A este propósito direi que a
travessia Bobadela-Alcochete (em ponte ou em túnel) seria, em termos de traçado,
muito mais lógica e sem os graves inconvenientes que apontei na
Chelas-Barreiro, nomeadamente nos aspectos ambientais e facilidade de navegação
no rio Tejo.
Todavia, não podemos ignorar que a
RAVE/REFER se encontra muito fragilizada e à mercê dos políticos do momento,
procurando sobreviver à custa de soluções rigorosamente alinhadas com a
“His master’s voice”; além disso, baseadas num secretismo doentio no que
se refere a tornar públicas essas soluções, arrastando exageradamente a sua
divulgação, o que lhe tem permitido justificar (?) mais facilmente os factos
consumados.
Parece-me importante dar conhecimento que
a AVE entre Madrid e Sevilha foi
inaugurada em 1992, mas só em 1997 começou a dar lucros.
Contudo, para esse resultado não se entrou em linha de conta com o custo
inicial das infra-estruturas e a sua amortização; e, não considerando estes
valores, o custo anual da manutenção de uma linha AV poderá orçar pelos
115.000 euros/Km anuais.
Tomando
como base estes números teremos, futuramente, a preços actuais:
- Lisboa/Caia …………..
213 Km x 115.000 euros = 24.495.000 euros/ano
- Porto/Lisboa …………..
300 Km x 115.000 euros = 34.500.000 euros/ano
A estas quantias termos que acrescentar as
que dizem respeito à amortização do elevado capital investido nas
infra-estruturas; certamente a pagar por todos nós, na medida em que os
privados muito provavelmente só estarão interessados na exploração comercial
das linhas AV. E com muitas condições… .
Caberá, pois, ao Estado o financiamento
dessas infra-estruturas, com custos muito elevados de 1º estabelecimento e,
nesta altura, com as ajudas possíveis da U.E., agora muito baixas pelos motivos
que todos nós conhecemos (cerca de 19% de fundos comunitários).
|
Com base em números fornecidos pelos espanhóis, sabe-se que o
custo inicial de um comboio de VE (Velocidade elevada) é cerca de metade
de um outro de AV (alta velocidade);, e que o custo da sua manutenção
anual fica cerca de 60% mais barata. |
Saberá, este Governo, os compromissos
brutais que pretende assumir e que irão onerar fortemente as gerações
futuras? Naturalmente não sabe
pois, sendo assim, não viria afirmar publicamente que uma linha de AV, no troço
Lisboa / Caia equivale a pouco mais
de 7% de uma linha clássica convencional… .
Saberá, ainda, que o número de utentes
previstos pela SET – 6,1 milhões de passageiros no 1º ano de funcionamento
desta linha e os 9,3 milhões cerca de 20 anos depois – pelo seu número
reduzido contraria frontalmente o aconselhado por vários especialistas que tive
ocasião de citar, entre eles os franceses Philippe Rouvillois e Martinand,
assim como os espanhóis Prof. Miguel Boggarin e Ginés de Rus?
Saberá, finalmente, que na linha Madrid /
Sevilha (471 Km de trajecto) o número de passageiros transportados em 2005 –
isto é, 13 anos após a sua inauguração – rondava os 6 milhões, dos quais
quase 1/3 dizem respeito a serviços que poderão considerar-se regionais:
Madrid / C.Real – a 171 Km distância e com um tempo de viagem de 51 minutos e
Madrid / Puertollano . a 210 Km de
distância com o gasto de uma hora e vinte minutos?
Permita-me, Srª SET, um pequeno reparo e
uma correcção:
-
o número de habitantes de Madrid e de Sevilha são muito superiores aos das
cidades portuguesas de referência (e o seu nível de vida, também);
-
actualmente, o custo de um bilhete de classe turística entre Madrid e
Barcelona, no AVE, é 124,30 euros e de 233 se viajar em classe executiva; uma
simples regra de três aplicada à futura linha AV, Lisboa / Madrid daria 128,7
euros para a classe turística, muito superior, portanto aos propalados 100
euros apregoados por V. Exª.
2 – Por outro
lado, continuam a gastar-se muitos milhões de euros numa rede (?) ferroviária
de bitola ibéria, sem que esteja elaborado um Plano Nacional de Mudança de
Bitola, em consonância com os espanhóis. Na ausência de qualquer estratégia,
é por demais evidente que estamos a
comprometer a interoperabilidade com os restantes países europeus e o
abaixamento, desejado, dos preços do nosso import / export.
Mais ainda: a insistência portuguesa na
bitola ibérica (caso da linha convencional de mercadorias entre Sines /
Évora / Elvas /Caia) poderá conduzir-nos a uma impasse de gravíssimas
consequências na medida em que os espanhóis prosseguem uma política de
intenso desenvolvimento dos seus portos e, deste modo, poderão em qualquer
altura, sob os mais variados pretextos dificultar a passagem dos comboios de
mercadorias de e para o mercado português. Basta-lhes prosseguirem com a
implementação da bitola europeia na sua rede.
É uma política de vistas curtas dos
nossos responsáveis que irá prejudicar, seriamente os nosso portos que numa
situação dessas serão postos de parte pelos operadores internacionais e
relegados à pequenez do nosso mercado interno. Ainda não perceberam?
Resta-nos um tráfego acrescido de camiões
transportando a mais variada carga a partir das plataformas logísticas ou dos
portos secos espanhóis situados próximo da nossa fronteira, em
direcção às zonas mais urbanizadas do litoral português; com os
inconvenientes que se conhecem.
Dada a indefinição que perdura
relativamente ao traçado das novas linhas de c.f. e quanto às variantes a
introduzir nas linhas convencionais, algumas delas com vantagens evidentes e de
largo alcance – cito, entre outras, Leiria / Pombal unindo as Linhas
do Norte e do Oeste, com pouco mais de duas dezenas de Km – só com
muita sorte é que as novas estações ou, aquelas que estão a ser modernizadas
poderão funcionar como elos de ligação entre futuras linhas de AV, as linhas
clássicas (convencionais) e as estradas. Todas elas necessárias e indispensáveis
para as sinergias que se pretendem.
Há problemas, sim, há
muitas faltas, mas este ministério não se atrapalha.
Em Julho passado a SET prometeu que a rede
convencional de c.f. iria receber 1,7 milhões de euros para implementar 12
projectos de investimento, por todo o país: variantes, modernização de linhas
e ligações ferroviárias das quais a mais importante é a Sines / Elvas.
Só não explicou duas coisas:
- porquê uma nova
linha convencional de mercadorias Évora / Caia? Em minha opinião, poderia
(deveria) rentabilizar melhor este troço aproveitando a AV como linha mista,
embora com velocidades comerciais mais reduzidas;
- onde vai buscar tanto dinheiro para
pagar… as promessas?
A leitura do portal do MOPTC relativa ao
primeiro concurso para a AV também é sugestiva, embora pouco esclarecedora;
assim;
“A linha de AV entre Lisboa e Madrid tem
como tempo de percurso objectivo as 2h 45 m para as ligações directas de
passageiros entre as duas capitais, cumprindo-se a ligação entre Évora e
Lisboa em 30m e os 167 Km do troço Poceirão / Caia em menos de 29m. …A
infra-estrutura da linha AV terá via dupla electrificada de bitola UIC, e será
projectada para 350 Km / h.
A componente da rede convencional no troço
Poceirão / Caia terá via única electrificada e será executada em bitola ibérica
e travessa polivalente”.
No que se refere aos tempos de percurso
entre Lisboa e Madrid, já fiz os
meus comentários e reitero o que disse: os tempos indicados não são praticáveis,
a não ser que os espanhóis alterem as características da linha AV entre
Badajoz e Madrid.
E quando se aponta para menos de 29m o
tempo necessário para percorrer o troço Poceirão / Caia, isso significa um
velocidade média comercial superior a 345,5 Km / h. Desculpem, mas esta afirmação
é ridícula: esta velocidade comercial não
se pratica em nenhuma linha de qualquer país do mundo.
Esta ignorância, direi melhor esta desfaçatez,
não é caso único dado já tive ocasião de verberar este Ministério pela sua
aparente cumplicidade face a números
errados apresentados por uma empresa de consultoria internacional (v. o meu
texto de 3 de Abril 2006 – Alguns Erros Grosseiros Quando da Apresentação da
AV – e seguintes).
Recordo, por último, que o traçado de
uma linha de muito alta velocidade nada tem a ver com a linha convencional para
mercadorias e velocidades comerciais muito mais baixas; mesmo tratando-se de um
terreno relativamente plano, como sucede no Alentejo. E a aplicação de
travessas polivalentes continua a ser uma técnica arriscada na medida em que são
relativamente recentes e, por isso, não suficientemente testadas. A elas já me
referi em artigos anteriores e penso retomar esta matéria no próximo texto, a
publicar neste sítio.
3 – O viaduto
Chelas – Barreiro, tal como projectado, irá ter um impacto ambiental fortíssimo
condicionando ou, mesmo, inviabilizando (conforme pormenorizei no meu texto
anterior) a navegabilidade do rio Tejo a partir do cais de Stª Apolónia, para
montante; dificultando as carreiras fluviais e a acostagem dos barcos,
nomeadamente nos cais do Beato, Poço do Bispo e na Matinha; assoreando o rio na
chamado Mar da Palha como consequência da implantação dos seus pilares;
limitando a amarração dos navios no novo terminal de cruzeiros, em Lisboa (com
efeito, um navio acostado, com cerca de 300 m de comprimento necessita, pelo
menos de 600 m livres para efectuar uma rotação completa, isto é para dar a
volta e sair em direcção à barra); e, dado que a cota fixada para o banzo inferior desta ponte é demasiado baixa, da
ordem dos 47 m acima das águas, o que vai inviabilizar a passagem dos
grandes navios e, deste modo, prejudica fortemente o acesso a Lisboa deste tipo
de turismo; acrescento, ainda, que a fixação desta cota irá ter consequências
insuperáveis no que se refere à ligação das novas linhas da c.f. previstas
neste viaduto, com as linhas de Cintura, Sintra e Cascais e, de igual modo, com
as estações da Gare do Oriente e Braço de Prata – esta última que
considero de complementaridade indispensável; fica posta em causa, por
manifesta incompatibilidade de cotas, a ligação directa à estação de Stª
Apolónia; irá prejudicar, tornando-se inacessível á maioria das aeronaves, a
pista principal do Montijo.
Dados todos estes condicionantes e
inconvenientes, em 9 de Junho p.pº fiz um pedido à SET, até à data sem
qualquer resposta:
|
Que fosse elaborada uma maqueta do viaduto Chelas – Barreiro e
das suas amarrações nas zonas limítrofes, um modelo reduzido, para a
sua apresentação pública (sugiro, agora, o Páteo da Galé, na Praça
do Comércio onde está patente uma exposição interessantíssima sobre o
“Plano da Baixa, Hoje”).
Sugeri, também, que numa folha
tipo A4 fossem tornados públicos os relatórios-síntese a serem
elaborados pelos Autarcas das Câmaras directamente interessadas, pelos
responsáveis da APL, da RAVE / REFER, Urbanistas e Projectistas que têm
vindo a estudar e a apresentar soluções para a zona ribeirinha. Relatórios
estes onde se apontaria, claramente, as vantagens e inconvenientes do
projecto proposto pelo MOPTC. |
Em virtude dos seus conhecimentos
privilegiados nesta matéria, dirijo um apelo pessoal à participação do
Presidente da C.M.L., Dr. António Costa, Vereador Dr. Sá Fernandes e
Arquitectos Helena Roseta, Ribeiro Telles e Manuel Salgado.
O assunto a debater é de suma importância
e as consequências da implementação deste projecto serão enormes para a
cidade e, certamente, para todo o país.
4 – No que se
refere ás auto-estradas marítimas aprovadas pela EU, uma delas interessa-nos
particularmente, o chamado Arco Atlântico ligado a Península Ibérica ao Mar
do Norte e à Irlanda, a que já fiz referência anteriormente, considerando-o um investimento reprodutivo muito importante para a nossa
economia e, provavelmente, a ser suportado
por parcerias Estado / Privados.
Julgamos, contudo, ser indispensável um
melhor esclarecimento desta situação, especialmente numa altura em que foi
tomada pública a assinatura de um Memorando de Entendimento entre o Estado, a
APL, a REFER e a Liscont, com vista à ampliação do terminal de contentores de
Alcântara e prolongado o prazo da sua
concessão.
Vejamos, então o que se passou:
Este terminal está concessionado à
Liscont, prevendo-se o seu termo em 2015.
Porém, em 2004, posta pelo Governo a hipótese de ser transferido para Stª
Apolónia, os responsáveis da Liscont exigiram garantias de forma que o novo
terminal oferecesse as mesmas condições de operação que o de Alcântara. O
que seria muito difícil de obter, dada a profundidade do rio, para menos, assim
como a escassez das terraplanagens disponíveis.
Note-se que as principais características
deste terminal de contentores, em Alcântara, eram as seguintes:
Área do terrapleno
concessionado – 97.323 m2.
Capacidade de
movimentação instalada – 350.000 TEU’s / ano
Capacidade de
armazenagem – 8.592 TEU’s / ano
Comprimento do cais
– 630 m
Fundos – 13 m ZH
Ainda para uma maior dificuldade na
transferência prevista para Stª Apolónia, sucede que tinha ficado acordado
entre a Administração do Porto de Sines e a PSA de Singapura (concessionária
do terminal XXI, em Sines) que o Governo
só poderia aprovar investimentos nos portos de Lisboa e Setúbal em áreas já
concessionadas ou em processo de concessão. Mais uma cláusula
condicionante que, pela sua ingenuidade (?), lembra o célebre “contrato de
exclusividade” assinado quando da construção da
Ponte Vasco da Gama.
Passados alguns governos e outros tantos
Ministros das O.P. (nomeadamente o Dr. Mexia e o Engº L. Valente de Oliveira),
em Abril de 2007 – já posta de lado a hipótese da transferência deste
terminal para Stª Apolónia – a Mota-Engil, através de uma “subholging”
adquiriu mais algumas posições nas empresas SOTAGUS e LISCONT, após o que
passou a controlar 100% da primeira e 82,94% desta última.
A autoridade da concorrência de então
(Prof. Doutor Abel Mateus), consultada, não se opoz a esta operação de
concentração “uma vez que não é susceptível de criar ou reforçar uma
posição dominante…”.
Sublinhe-se, contudo, que a Autoridade fez
questão de esclarecer que, embora consultado, “ O IPTM – Instituto Portuário
e dos Transportes Marítimos ainda não se pronunciou, em concreto, quanto às
eventuais implicações da operação de concentração em análise no sector
maritimo-portuário,…” por razões, segundo parece, motivadas por circunstâncias
e vicissitudes várias que assim não o permitiram.
É estranho, mas é um
facto. Este parecer tem a data de 25 de Junho de 2007.
Pouco tempo depois, em 27 de Setembro de
2007, a REFER – Representação Permanente Portuguesa, em Bruxelas, informou
que a Comissão Europeia, por proposta do Vice-Presidente Jacques Barrot, nomeou
Luís Valente de Oliveira (entretanto saído do Governo) para coordenador
europeu para as redes transeuropeias de transportes, mais concretamente, para as
auto-estradas do mar. Transcrevo:
“Luís Valente de Oliveira exerceu nos
últimos anos cargos no Governo Português onde ocupou, nomeadamente, o posto de
Ministro do Planeamento e Administração do Território, de 1985
a 1995, e de Ministro das Obras Públicas, Transportes e Habitação, de
2002 a 2003. A criação de auto-estradas do mar são ligações marítimas,
regulares e de qualidade, entre vários portos da União Europeia, numa lógica
de cadeia multimodal perfeitamente integrada que não só evita estrangulamentos
rodoviários, como permite uma maior integração das regiões periféricas e
insulares da União”.
Resumidamente, direi que o Presidente da
Comissão Europeia, Durão Barroso, nomeou responsável pelos transportes o
Vice-Presidente da Comissão Jacques Barrot e, posteriormente, por proposta
deste, nomeou o Engº L. Valente de Oliveira coordenador europeu para as
auto-estradas do mar. Neste cargo cabe-lhe, pois, facilitar o diálogo entre os
Estados interessados, com vista a uma melhor sincronização dos trabalhos e dos
planos de financiamento, envolvendo projectos essenciais para
se desenvolver uma política de transportes sustentável.
A título meramente pessoal cabe-me
dizer que considero este engenheiro um técnico de qualidade indiscutível.
Por outro lado e numa outra perspectiva,
quem se der ao trabalho de ler o Relatório e Contas da Mota-Engil, SGPS, S.A.,
relativo ao ano de 2007, poderá comprovar:
O Prof. Luís Valente de Oliveira (além
de muitos outros cargos em empresas e instituições devidamente identificadas)
desempenha, aì, as funções de Director não executivo (2006-2009), tendo como
Presidente António Manuel Queirós Vasconcelos da Mota. Acrescente-se que uma
parte das remunerações atribuídas (cujo montante se específica), ficará
dependente dos resultados obtidos.
No Relatório referido poderá, ainda,
ler-se que a Mota-Engil terá uma participação de 30% no capital da Sociedade
que irá ser criada para gerir a plataforma logística do Poceirão – a LOGZ.
ATLÂNTICO HUB, SA – com uma vocação
atlântica e preparada para responder aos desafios da intermodalidade,
nomeadamente nos mercados Ibéricos e Europeus (o sublinhado é meu).
“A sua localização estratégica, tendo
como vantagem a proximidade dos portos de Lisboa, Setúbal e Sines permite-lhe
funcionar como porta de entrada para o
tráfego de mercadorias de e para os continentes Americano e Africano, criando
uma nova alternativa para navios de baixo calado na Península Ibérica,
incrementando os fluxos provenientes dos portos domésticos para o
“hinterland” Ibérico”.
Parece-me haver uma clara contradição
entre o cargo que o Engº Valente de Oliveira desempenha na Mota-Engil e as funções
de coordenador das A-E marítimas: isto por razões de ética e deontologia
profissional.
Com efeito, não se ignora que terá de
estudar e elaborar pareceres relativos a essas A-E que tocam os portos
portugueses, nomeadamente os principais; e quanto a estes, o terminal de
contentores de Alcântara concessionado à Mota-Engil è único (pelas suas características) no porto de Lisboa.
E, sendo assim, o Sr. Engº poderá ter de
arbitrar ou, pelo menos intervir em eventuais conflitos de interesses entre a
Mota-Engil e outros. No centro das decisões, ser-lhe-á muito difícil, optar
sem que fique sujeito a fortes críticas, na medida em que poderá obter informações
privilegiadas e ter acesso fácil aos melhores contactos.
Lá diz o ditado: Não
basta ser honesto, é preciso parecê-lo.
Não tenho formação nem conhecimentos
suficientes de ordem jurídica mas, a experiência da vida ensinou-me que nem
tudo o que é legal é moral. Se há nesta situação algo que mereça ou deva
ser esclarecido, estou certo que o Sr. Engº o fará no mais breve prazo e com
frontalidade que é lícito esperar. E já tarda.
5 – Prosseguindo,
direi que em 28 de Abril do corrente ano, quando da cerimónia da assinatura do
Memorando de Entendimento sobre a Nova Alcântara, houve uma intervenção do
Sr. Ministro das O.P. e também, da sua SET acerca deste assunto. Dessas
intervenções extraímos aquilo que nos pareceu mais relevante:
O Sr. Ministro declarou que se estava em
presença de um acto histórico, na medida em que se procurava reforçar a
competitividade internacional do país, estando previstos cerca de 400 milhões
de euros de investimento, dos quais 180 milhões públicos e 227 milhões de
privados.
Pôs em destaque a solução ferroviária
desnivelada para o nó de Alcântara, solução esta discutida e prometida há
muitos anos e que irá melhorar significativamente a mobilidade na AML,
beneficiando ainda mais aqueles que trabalham em Lisboa e vivem ao longo da
linha Lisboa –Cascais.
Nó este que irá acabar com o cruzamento
de nível rodo – ferroviário e, assim, através da linha de Cintura (e a sua
ligação à rede do Metropolitano) permitir uma distribuição mais fácil e rápida
para os seus utilizadores.
O Sr. Ministro admite, também, que a
capacidade do actual terminal de contentores concessionado à Liscont deverá
esgotar antes do final da concessão – 2015 – donde a necessidade urgente de
se investir na expansão do porto de Lisboa.
De acordo com uma equipa multidisciplinar
que mandatou para o efeito, chegou à conclusão que a melhor solução, isto é,
aquela que melhor defende o interesse nacional, consiste na prorrogação do
prazo da actual concessão tendo em contrapartida a concretização urgente dos
investimentos necessários.
Deste modo, será possível triplicar a
capacidade portuária (de 350.000 para 1.000.000 TEU’s / ano) e reclassificar
este terminal que era de águas profundas em 1984 e, agora, não passa de um
porto secundário. Além do que este investimento permitirá a melhoria das ligações
ferroviárias e fluviais, “permitindo
assim que possa servir como uma referência para as cadeias logísticas da
fachada atlântica da Península Ibérica” ( o sublinhado é meu).
Nesta mesma sessão, a Secretária de
Estado dos Transportes destacou também alguns motivos que justificam as soluções
propostas:
- A descontinuidade no serviço de
passageiros entre a linha de Cascais e a de
Cintura;
- A previsão de esgotamento da capacidade
do terminal de Alcântara antes do final da actual concessão.
A
intervenção ferroviária (conexão
entre a linha de Cascais e a de Cintura) corresponderá a um investimento
estimado em cerca de 59 milhões de euros.
A
intervenção portuária (com um novo
plano de investimento) prevê:
- Ampliação, reorganização e
reapetrechamento do terminal de contentores de Alcântara, com vista a atingir
uma capacidade de 1.000.000 TEU’s /ano;
- Obras de melhoramento das
acessibilidades marítimas, permitindo o acesso de navios porta-contentores com
o calado máximo de 15,50 m e 400 m de comprimento (o terminal passa de “feeder”, porto secundário, a “deep-sea”, águas profundas);
- Criação de uma zona de acostagem e operação de barcaças viabilizando o
transporte fluvial de cargas, articulando este terminal com as áreas logísticas
a montante (Bobadela, Castanheira do Ribatejo e Poceirão);
- Construção da linha ferroviária
desnivelada em articulação com a ligação para passageiros.
Tudo isto irá permitir a ligação por
via ferroviária e fluvial às já referidas plataformas, sendo que esta
intervenção irá totalizar 348 milhões de euros, tendo este Memorando de
Entendimento sido assinado pelo Estado, a APL, a REFER e a concessionária
Liscont e a TERTIR.
A SET concluiu dizendo que a capacidade do
TCA – Terminal de Contentores de Alcântara será expandida à custa de um
investimento de 226,7 milhões de euros por conta da concessionária (num total
de 407 milhões) tendo como contrapartida a prorrogação do prazo da concessão
por mais 27,5 anos.
Deste Memorando resulta, ainda o
compromisso da realização de um conjunto de intervenções por parte da APL e
da REFER, embora não discriminadas,
Nesta mesma data, 28/04/08, as acções da
Mota-Engil subiram 1,97% passando para 5,69 euros; muito razoável, em tempo de
crise.
Esquecia-me de dizer que o Sr. Ministro
terminou o seu discurso, exclamando:
“Por um Portugal
melhor no presente e para as gerações futuras”.
Tendo a Srª SET finalizando:
“E esta a nossa
forma de trabalhar!”
“É assim que construímos o futuro!”
Felizmente estamos muito longe dos tempos
em que os governantes terminavam, sistematicamente: “ A Bem da Nação”.
Mesmo quando davam a bênção (e os benefícios) às maiores aberrações.
6 – Qualquer
leitor com um mínimo de curiosidade gostaria de saber o que pensam os
organismos responsáveis sobre esta matéria, nomeadamente o IPTM, a APL ou,
melhor ainda, o MOPTC que os tutela; vejamos.
Em Dezembro de 2006 o MOPTC publicou um
Documento-síntese com as orientações estratégicas para o sector marítimo-portuário;
dele respigamos:
Em relação ao porto de Lisboa, após as
generalidades de circunstância aceca da sua vocação como porto multifuncional
e o desejado aumento da sua actual capacidade, indica-se
·
O reforço da sua capacidade logística
através da ligação à plataforma portuária polinucleada de Castanheira do
Ribatejo / Bobadela, potenciada, nomeadamente, pela utilização da via fluvial
e, futuramente, à plataforma urbana nacional do Poceirão;
·
Potenciar a sua actual situação
de primeiro porto de cruzeiros do continente, tornando-o uma referência nas
rotas turísticas internacionais;
·
Melhorar a integração na ara
urbana envolvente, em conciliação com os instrumentos de gestão territorial
dos municípios da área de jurisdição.
|
Rubrica
Investimentos – Grandes rubricas para 2010. Valores em Euros x 1.000 |
|
Modernização/recuperação. 37.000,dos
quais 23.000 para terminal passag. (cruzeiros) Acessibilidades
………………. 4.600,
Nó de Alcântara, total 10.000 (REFER / CML / APL) Logística
………………………….
? Investimento
privado logística Desenvolvimento
tecnológico 35.500,
dos quais 30.000 da Agência Europ.Segur.Marítima |
Continuando a leitura, transcrevo: “Em
2010 face à procura estimada pelos portos para os vários segmentos de
carga, com os melhoramentos já em curso ou que agora estão programados a curto
/ médio prazo, o país disporá ainda de uma reserva de capacidade
tanto no conjunto dos portos como em quase todos eles de per si, que urge
rentabilizar “.
“De facto, nesse ano, apenas na carga
geral fraccionada para Lisboa e Setúbal… os valores atingidos aproxima os
respectivos terminais da saturação”.
“Para 2015, o porto de Setúbal é
aquele que, globalmente, apresenta maior taxa de utilização (84%), seguindo-se
Aveiro (77%), Lisboa (70%) … . Apresentam-se próximos da saturação, na
carga geral fraccionada, Lisboa e Setúbal…”.
Prosseguindo, deparamos com um Quadro de
Acções e Investimentos APL e respectivo horizonte temporal. Destaco neste
Relatório, relativamente recente, como se verifica:
|
ACÇÔES
|
|
INVESTIMENTOS
|
No que se refere ao IPTM, impota pôr em
destaque as suas funções regulatórias e de planeamento estratégico. E, deste
modo, no seu quadro de acções com um determinado horizonte temporal,
salienta-se:
|
|
Suponho que todos estarão de acordo em
que a integração de Portugal nas A-E marítimas europeias constitui uma acção
estratégica da maior importância para a economia nacional e, a propósito,
lembro que estamos a desenvolver o projecto PORTMOS, o que permitirá contribuir
substâncialmente para o alinhamento entre os portos nacionais e os europeus.
O IPTM deverá, pois, ter um papel fulcral
na política de expansão e desenvolvimento dos portos nacionais e, mais
particularmente, no porto de Lisboa; motivo pelo qual deverá informar devidamente a Tutela acerca da nova concessão que se
pretende conceder à Liscont.
Após a leitura deste Documento-Síntese
relativo às orientações estratégicas para o Sector, fácil è de compreender
que a assinatura do Memorando de Entendimento a que fizemos referência tenha
sido uma surpresa para a maioria dos Serviços salvo, evidentemente, os
previlegiados; com efeito, a nova orientação não caíu do céu e, certamente,
teve de ser elaborada com a colaboração desses eleitos.
Ou com recurso ao “outsourcing” ou,
... uma coisa é certa: mais uma vez prevaleceu a politica de posso, quero e
mando, ao sabor dos responsáveis do MOPTC e Directores por si nomeados, mais ou
menos submissos ou coniventes.
Na jovem democracia portuguesa pouco conta
a “meritocracia” (em que a escolha dos cargos recai sobre os mais aptos) e,
na maioria das vezes, reina a “partidocracia”, com essas escolhas ditadas
pelo aparente fervor partidário.
Mas, atenção: a política de favores
pode degenerar, facilmente, na corrupção e, até, na “cleptocracia” como
resultado da impunidade sistemática dos prevaricadores. Há que estar atento.
7 – Nesta ordem
de ideias, os capítulos anteriores merecem mais alguns comentários – que
pretendo ver esclarecidos – dada a gravidade do que está em causa; analisando
a matéria, pode constatar-se a existência de duas
grandes questões que puz em destaque:
- a
pretensa ilegalidade das funções exercidas pelo Sr. Engº Valente de Oliveira e
- o
prolongamento da concessão do terminal de contentores de
Alcântara reformulada, agora, em
condições técnico-económicas nuito mais vantajosas, com o alargamento da área
concessionada e maiores fundos para este terminal.
No que se refere à primeira, já expuz os
meus pontos de vista e resta-me aguardar que os responsáveis se pronunciem,
dado que a minha sensibilidade para estes problemas pode não coincidir com a
dos juristas que, penso eu, deveriam ter-se pronunciado, há muito.
Em todo o caso, neste país de brandos
costumes e muita corrupção (dizem), ainda confio no Tribunal de Contas, bem
apetrechado de meios humanos e cuja intervenção em casos anteriores tem
impedido a ocorrência de nuitas situações inaceitáveis. Tanto mais que este
MOPTC extingiuu o Conselho Superior de Obras Públicas e o novo Observatório de
Obras Públicas previsto no Código dos Contratos Públicos (CCP) ainda não se
encontra operacional.
Nada obsta, suponho, que o Tribunal de
Contas proceda a uma fiscalização prévia na defesa das regras da concorrência,
enquanto não se pronuncia o Conselho de Prevenção da Corrupção. Deixo aqui
o meu apelo.
Lembro que em 72 empreitadas de obras públicas
auditadas pelo T.C. concluiu-se, em média, que essas obras apresentaram um
desvio de 100% (!) relativamente às verbas inicialmente previstas (Prof. Antº
F.M. do IST).
Passando à segunda questão e analisando,
criticamente, e Memorando de Entendimento, levanto algumas dúvidas e objecções,
muito embora algumas das medidas anunciadas sejam, de há muito, consideradas
imprescindíveis e urgentes. Vejamos com mais algum pormenor:
·
A reclassificação do terminal de
Alcântara para águas profundas, como acontecia em 1984 antes do seu
assoreamento, é aconselhável quer se
trate de um porto para contentores, quer um terminal de cruzeiros, dada a
tendeência irreversível para o uso de navios cada vez maiores e, por isso
mesmo, de maior calado tendo como objectivo a redução dos custos unitários do
transporte;
·
Não se compreende, porém, a urgência
manifestada pelo MOPTC ao considerar esgotada a capacidade de movimentação dos
contentores muito antes do limite da concessão, em 2015. O raciocínio é
simples: basta comparar com o que se
pasda noutros portos congéneres, p.e. na vizinha Espanha presentemente
envolvida num enorme programa de requalificação dos seus (Algeciras,
Valência, Barcelona, entre outros).
Admitindo, no nosso caso, que a área de
terrapleno é relativamente modesta, nada obsta que – numa situação de emergência – se mande aterrar 1/3 ou mesmo ½
da doca de Alcântara, vulgo do Hespanhol, tão mal aproveitada (mais uns 4 ha
na primeira hipótese e cerca de 6ª, na segunda). E, aínda, aproveitar parte
da área ocupada pelos Estaleiros Navais, adjacentes, para o chamado
armazenamento de 2ª linha e manutenção dos contentores, a prolongar-se
eventualmente para as plataformas logísticas a montante.
Mas antes disto, penso eu, a dragagem do
cais iria permitir desde logo a atracagem de porta-contentores de 3ª e 4ª geração
(1980), com um comprimento de 250 – 295 m e podendo transportar 3.000 –
5.000 contentores para uma calado de 13,5 m. Ou, então, os Post-Panamax (1992),
com o comprimento de 284 – 318 m e transportando 5.000 – 6.000 contentores.
Estou a referir-me, evidentemente, aos chamados navios-mãe dado que os navios
“feeder” com uma capacidade inferior, destinados ao “transhipment”
transportam 1.500 e mais contentores.
É evidente que uma maior capacidade de
manuseamento obriga a mais equipamento. Isto é, o concessionário terá de
abrir os cordões à bolsa. A título de exemplo: um navio Post-Panamax, em
princípio, deverá ser assistido simultâneamente por três gruas
“portainer” (duas à frente e uma à popa); e, também, simultâneamente por
três gruas “portainer” (duas à frente e uma à popa); e, também, os
chamados “Mafi”, tractores de terminais, assim como as gruas
“transtainer” para a movimentação dos contentores no terrapleno do cais.
Facilmente
se atingiria, estou convicto, mais de 400.000 TEU’s / ano com este mesmo
comprimento de cais e haveria tempo mais do que suficiente para se definir uma
estratégia de desenvolvimento para o porto de Lisboa.
A título de curiosidade, esclareço que
os novos pórticos “portainer” atingem 115 m de altura e conseguem alcançar
20 filas de contentores, dado que têm um alcance de 45 m.
Aumentar a produtividade passa, também,
pela simplificação dos procedimentos administrativos, aliás um dos objectivos
das A-E marítimas que irão favorecer o transporte multimodal. E, logo à
partida, é bom que isso suceda na verificação da carga dos contentores, pelos
“scanners” (pude constatar, de visu, que este é um dos pontos de demora
quando se trata de libertar os camiões carregados, antes de abandonarem o
cais).
Concluímos, assim, que há
aínda muito que possa ser feito para se aumentar a rentabilidade do actual cais
de contentores, concessionado à Liscont. Concessão esta que, repito, só acaba
em 2015.
Compreendemos, perfeitamente, o interesse
da Mota-Engil em prolongar esta concessão, tanto mais que a compra da Tertir, a
liderança da plataforma logística do Poceirão e a parceria com os espanhois
da ACS-Dragados, em Setúbal, leva esta empresa a ficar numa posição
dominante.
Mas, o que é que
faz assim correr o MOPTC?
E qual é a posição do regulador, neste
caso o IPTM – Instituto Portuário e dos Transportes Marítimos? Cabendo-lhe
elaborar uma proposta para a nova lei dos portos a apresntar a sua estratégia
em função dos mercados-alvo, porque não se pronuncia? E cabendo-lhe
identificar e padronizar com a colaboração e apoios das AP’s os instrumentos
de acompanhamento e reporte anual de informação sobre as concessões, porque não
se pronuncia?
Mas, o que é que faz correr assim o
MOPTC, sabendo-se que a APL apresentou como taxa de ocupaçãp 67% para a carga
geral, em 2015 e, mesmo assim, a AGEPOR – Associação dos Agentes de Navegação
de Portugal – declara que esta meta é
demasiado optimistas.
Não seria mais prudente aguardar aquilo
que este mesmo MOPTC recentemente prometeu, isto é, a elaboração do Plano
Nacional Marítimo-Portuário e o Plano de Estratégia e Exploração do porto?
E a sua integração nos serviços de A-E do Mar?
Há, ou não, opções e investimentos
programados?
Há, ou não orientações estratégicas a
cumprir?
Julgo ser inevitável a futura expansão
do porto de Lisboa para a Margem Sul do rio Tejo, dada a insuficiência de
terraplenos livres na sua margem Norte e, por outro lado, a escassez de bons
fundos estes, relativamente fàceis de obter a custo razoável, nessa hipótese.
E, sendo assim, dada essa inevitabilidade,
porque não “aguentar” um pouco mais o terminal de Alcântara (com algumas
correcções, conforme atrás indiquei) e faze-lo parte integrante do Plano de
Exoansão do Porto de Lisboa, quando for aprovado?
Este Ministério, aliás à semelhança do
que sucedeu com o Novo Aeroporto de Lisboa (NAL), avançou com determinadas soluções,
nomeia um Serviço por si tutelado ou, então, uma equipa mandatada para o
efeito; baseado nos seus pareceres, por vezes incompletos, decide. No caso
vertente, será lìcito perguntar quais os termos do mandato e quais as declarações
de voto dos componentes dessa equipa... .
Nos dois casos a táctica é sempre a
mesma: alijar responsabilidades, mesmo se essas análises ficam desde logo
circunscritas e, pelo teor do mandato, de âmbito limitado.
Posso acrescentar, também, que o MOPTC
ignora majestáticamente o contraditório. Haja em vista a ausência de
reacção da SET às críticas por mim formuladas no texto “Alguns Erros
Grosseiros Quando da Apresentação da AV – 3 de Abril de 2006”;
posteriormente, “Nos Bastidores de Alta Velocidade
- 8 de Agosto 2006” e, por último, “O Silêncio dos Responsáveis. O
Desfazer de Algumas Ilusões – 25 de Abril de 2007”
Nestes trabalhos não me limitei a apontar
os numerosos erros que encontrei num Documento de Trabalho apresentado
publicamente por um Vice-Presidente, da A.T. Kearney (empresa de consultadoria
contratada pelo MOPTC), dando desde logo os números correctos, baseado em
fontes indiscutíveis.
Indiferente e descaradamente, a SET
participou posteriormente com o Sr. Ministro das O.P. em vários Fóruns da
especialidade onde comparecia o citado Vice-Presidente, como orador.
Concluí, assim, que os números
oficialmente apresentados não eram, afinaal, uma base para reflexão, antes
podendo dar azo a uma vulgar manipulação política.
De forma idêntica e com o mesmo à-vontade,
o MOPTC procedeu relativamente às alterações sofridas pelo Plano de
Plataforma Logística a que fiz referência no meu trabalho de 8 de Agosto de
2006.
Na verdade, em 9 de Maio de 2006 o MOPTC
anunciou um Plano Estratégico que previa a construção de 11 plataformas logísticas.
Dois meses depois, em 7 de Julho, inopinadamente, informa que foi entregue (sem
concurso) uma nova plataforma à em
presa espanhola Albertis, accionista da Brisa,
situada em Castanheira do Ribatejo.
Caso curioso, o chamado Portugal Logístico
parece também ter ignorado o Terminal Multimodal do Vale do Tejo (TVT) em
Riachos, perto do Entroncamento o qual, até à data, é a única plataforma logística
portuguesa que a Comissão Europeia considera na rede transeuropeia de
transportes. A trapalhada é lamentável.
Conforme escrevi, o que agrava ainda mais esta decisão é o facto da
futura plataforma de Castanheiro do Ribatejo ficar situada em terrenos da
Reserva Agrícola Nacional (RAN) e da Reserva Ecológica Nacional (REN). Aliás,
numa zona que constitui parte da Reserva Aquífera Estratégica Nacional,
ocupando um área no mínimo com 150 ha, ou seja, o equivalente a outros tantos
campos de futebol.
Mas há mais: Conforme demonstrei no texto a que faço referência, há
muito que se sabia que o Governo e a empresa espanhola estavam em negociações.
Por isso mesmo, não se compreende o motivo que o levou a “esquecer” esta plataforma
no seu Plano Logístico apresentado dois meses antes.
O que motivou a conceituada cronista Luísa Schmidt a escrever no semanário
Expresso:”Por que razão a REFER construiu uma estação de comboio tão bem
apetrechada e moderna num lugar praticamente ermo com Castanheiro do Ribatejo,
ali mesmo a servir como uma luva à futura plataforma… ou urbanização? No mínimo
cheira a esturro”.
De projecto em projecto, de plataforma em plataforma, a mais importante
reserva aquífera do país vai sendo neutralizada; a saber: a plataforma logística
de Castanheiro do Ribatejo, a do Poceirão, o novo aeroporto de Lisboa (NAL) com
todas as suas urbanizações satélites e acessibilidade. É muito; é, mesmo,
demasiado.
8 - Termino este
texto com alguns breves apontamentos que me apraz registar:
O
propósito de ligar a linha de Cascais com a de Cintura, em túnel, é uma
medida altamente louvável dado que irá acabar com a actual solução de
continuidade entre estas duas linhas; é uma hipótese que se estuda há algumas
dezenas de anos, porém muito difícil de concretizar, porquanto:
Sucede, salvo erro, que este cais ficou
operacional à volta do ano de 1900; posteriormente, foram efectuados trabalhos de
beneficiação e requalificação o que permitiu, em 1984 a sua actual utilização.
A dúvida – tecnicamente inevitável – resulta de se ignorar com exactidão as
condições em que se encontram as fundações do cais e sabendo-se, por outro
lado, que ele está assente em terrenos com condições geológicas muito difíceis.
Por isso, lanço as perguntas:
Será que ao escrever, junto ao cais, para
se obterem os fundos pretendidos pela SET, ficará comprometida a estabilidade
da obra? A muralha aguenta? Se afirmativamente, a que preço?
Estes comentários, sinceramente,
pretendo-os construtivos na medida em que levianamente se prometem mundos e
fundos ... até ver. Haja em vista o pacote fenomenal de obras públicas já
apresentadas ou a fazer até 2017, representando um investimento de 40
mil milhões de euros, incluindo estradas, auto-estradas, barragens,
hospitais, plataformas logísticas, caminhos de ferro convencionais e de alta
velocidade, o novo aeroporto de Lisboa, etc, etc.
Aconselho acalmar e tomar fôlego. Deste
modo, ainda antes da assinatura dos Memorandos de Entendimento ou dos Contratos
PPP que se avizinham, sugiro que se mande estudar muito bem os dossiers para
evitar, mais tarde, pedidos de indemnizações dos empreiteiros por atrasos nas
obras (mal coordenadas) ou, então, por expectativas falhadas.
A título de exemplo: suponha, Srª SET
que o “desfazer” do nó de Alcântara (ainda sem projecto definitivo) se
atrasa? E muito? Ou se as obras no terminal de contentores se revelam dificeis,
demoradas e muito caras?
São meras hipótese que devem ter uma
resposta atempada pois não ignora certamente, que um bom técnico é aquele que
sabe encontrar soluções correctas ... e económicas. Pondo de parte estes bons
princípios, não se admirem que as obras públicas possam atingir o dobro do orçamentado
ou, então, que os empreiteiros façam valer as cláusulas mais aberrantes.
Quando, na realidade, o negócio só é
bom quando é bom para ambas as partes.
E os nossos filhos e as gerações
vindouras agradecerão.
H. Oliveira Sá, 9 de Outubro de 2008
e-mail
: henrique.oliveira.sa@clix.pt
site
: http://caminhosferroaltavelocidade.planetaclix.pt